Sobre si

Ok, garota. Você já tem mais de trinta. Está longe de ser uma menininha indefesa. Aliás, nunca foi. Sempre foi observadora para ter certeza do próximo passo a ser dado. Nunca negligenciou um sentimento, por mais doentio que fosse. Guardou papéis de carta, de bala e alguns bilhetes. Escreveu cartas (muitas): rasgou a maioria delas por covardia. Virou escritora por valentia. Quis berrar para o mundo tudo o que guardou por anos, na memória e no coração. Continuar lendo

Café e distrações

Você pode até tentar me provocar ciúmes, dizer que ela é linda, enumerando características que ela possui e eu não. Eu te falarei dos meus livros, minhas lutas pessoais e um pouco de Almodóvar, que você só conhece pela paleta de cores dos filmes.

Tentando ir além, você a levará para a festa em que estaremos e eu terei de engolir em seco palavrões quilométricos. Na minha transparência facial, você conquistará um ponto de vantagem. Nem ligo. O que são caras e bocas, perto do que a gente tem um com o outro? Continuar lendo

Metáfora da goiabeira

f5a3a096db777f74e71b353ab351947b

Quando eu era pequena, estudava em uma “explicadora” que tinha uma goiabeira no quintal. Eu não sabia quando comecei o reforço escolar, mas depois descobri. Nunca fiquei tão feliz. Para driblar minha timidez, a explicadora me deixava pegar uma goiaba do pé, caso eu terminasse os trabalhos de casa. Eu não pensava duas vezes: colocava a preguiça de lado e fazia tudo certinho. Antes de sair pelo portão, eu subia em um banquinho de cimento e puxava uma goiaba branca. Fazia isso todo dia. Até que um dia me desequilibrei e caí. Ralei um pouco os dois cotovelos, mas não fiz estardalhaço, nem chorei. Só fui para a casa triste, sem minha fruta preferida na mochila. Continuar lendo

O que você faz quando as luzes se apagam?

light_up_your_inspirations_by_blackjack0919

Quando eu era pequena, ficava apavorada quando acabava a luz do bairro. Isso sempre acontecia em dias de muita chuva. Estávamos vendo televisão e, do nada, tudo ficava um breu. Eu corria para o quarto da minha avó. Ela, que vivia na escuridão total por ser deficiente visual, sabia tirar aqueles menos de letra (menos quando estava calor, é claro). Eu entrava esbaforida, praticamente arrancando a porta do quarto. Ela já sabia que era eu e dizia: “acabou a luz, né?”, deixando um espaço na cama para eu deitar, logo em seguida.

Antigamente, os serviços prestados pela fornecedora de energia não eram tão ágeis como agora. Chegávamos a ficar três dias sem luz. Quando isso acontecia, eu torcia para amanhecer logo e aproveitar a luz do sol, mesmo que não pudesse assistir minhas novelas preferidas. Continuar lendo

Siga sua alegria

 

i_carry_your_heart_with_me_by_kittify-davu2ia

Primeiro texto do ano.

Estou, desde onze da noite, tentando escrever algo que faça algum sentido e que seja tão espetacular, a ponto de me redimir pela ausência de posts nos últimos meses. Aí me dou conta de que não sou espetacular. Sou simples demais para subverter a literatura. Então paro, por mais cinco minutos, para pensar no que escrever.

O texto, a priori, seria sobre a viagem que fiz ao Espírito Santo, na semana passada, mas o mundo não orbita em meu umbigo (quando ele assim o fizer, escrevo). Depois, pensei em algo mais clichê e previsível, o ano novo, mas já tem muita gente escrevendo sobre, utilizando sinônimos e metáforas demais. Então, depois de muito pensar (uma hora e meia, para ser exata), decidi que não quero decidir nada. Está tarde, estou insone e não quero ser chata. Vai ser como precisa ser. Continuar lendo

Deixa eu te conhecer de novo?

let_the_light_shine_on_love_by_pinkparis1233-d6tloo0

Era 2007, quando terminamos por telefone. Ele, grudento demais. Eu, buscando um amor tranquilo, como Cazuza cantou. Encerramos um telefonema que não demorou dois minutos. Tudo muito breve, direto. Desliguei, peguei as chaves de casa, a bolsa e fui para a faculdade, como se nada tivesse acontecido. Era só um relacionamento que não deu certo, por ene fatores: distância, bagagens, horizontes e gostos (musicais, literários, gastronômicos). Ele comia feijão gelado. Parece desejo de grávida, eu dizia. E ríamos, até a barriga doer. Continuar lendo

Curto, para não entediar

55e44c8733242c8ff240e837f934a9de

Eu nem sei como começar esse texto, mas quero ser breve. Você não tem mais a paciência de antes. Tive um sonho triste, durante uma soneca à tarde. Às vezes me pergunto como consigo sonhar questões tão profundas em vinte minutos. Na verdade, o ponto não é o sonho, porque você já conhece. Eu sempre falo dessas mesmas pessoas, que me magoaram e ainda povoam meus sentimentos. A questão é que acordei super triste, ameacei umas lágrimas, pensei em te procurar e te contar… mas perdi a coragem. O e-mail, com uma frase só, está no rascunho. Eu só queria que você soubesse que eu gostaria que estivesse aqui, me abraçasse, beijasse minha testa e me dissesse que não foi nada. Que essas pessoas não podem me fazer mal algum e que eu sou forte para passar por isso e por tantas outras coisas. Talvez, não com essas palavras, mas com a intenção. Agora eu olho para a janela, tentando encontrar resposta para o sonho e para a saudade.

E percebo como seria incrível amanhecer com você.

 

Aryane Silva

IMAGEM: Jojo (Deviantart)

 

Diálogos (quase) possíveis – história 12

pages_by_mrbee30-d6qriqi

Era quatro e catorze da manhã, quando ele despertou, sobressaltado. Quem dormia ao seu lado não notou, o que o fez lamentar aquele cenário. Ela, a outra, estava deitada de bruços, com uma das pernas para fora da cama, dormindo profundamente. Ele ficou sentado na cama, olhando-a dormir, esperando algum tipo de preocupação, ao menos murmurada, mas nada. Que porra eu tô fazendo da minha vida?, ele perguntou a si mesmo. Continuar lendo