Lente de aumento

Um dia, há muito tempo, eu te disse que estava muito velha para fazer novas amizades. Você riu e falou da maneira exagerada como eu vejo as coisas. Eu ri de volta porque, naquele momento, meu desabafo era desnecessário. Eu tinha você, acima de tudo. Podia perder qualquer pessoa, que era para você que eu voltava. Nos falávamos quase todos os dias e, ao final de infinitas conversas ao telefone, você me dizia “isso de nos afastarmos não faz o menor sentido, você é muito importante. A pessoa mais importante”. Eu acreditei por alguns meses e, pela primeira vez na vida, relaxei os ombros, sabendo que eu tinha alguém por mim, independente do que eu fizesse, dissesse ou sentisse. Você estaria do outro lado, me esperando para uma reprimenda ou um abraço.

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O caminho dos barcos

“Você sempre está com as malas arrumadas. Parece que a todo momento pensa em ir embora.”

Há anos conheço uma pessoa. Ela chegou à minha vida em um momento de travessia pessoal muito conturbado. Eu me sentia absolutamente sozinha, física e emocionalmente. Mas isso não foi um obstáculo. Ela apareceu e senti uma série de medos quebrarem dentro de mim. Esse foi o meu erro. Baixei minha guarda, escancarei as portas e essa pessoa, sem o mínimo de cerimônia, entrou.

A sintonia que une energeticamente duas pessoas, aconteceu rápido. Quando me dei conta, eu estava falando além do necessário. Eu me abri, como nunca tinha feito antes. Contei sobre minha família, preferências, lugares que conhecia e sonhos que tinha. Era como se algo me possuísse e me levasse a um terreno desconhecido. Sem pensar muito, me perdi em um mundo completamente novo. Continue lendo “O caminho dos barcos”

Adeus silencioso

Só percebi que ele deixou de me amar quando eu me dei conta que passava muitas horas do meu dia olhando pela janela.

Eu não via ninguém passar.

Eu não esperava por alguém.

Na verdade, tudo o que via era uma vastidão imensa. Lá fora e por dentro.

Então me dei conta de que eu não sou ninguém tão importante assim para fazer alguém ficar.

E que nos dois, por mais certos que estejamos em nossas escolhas, somos indefinidos.

Precisamos de uma gramática que nos faça acontecer.

Aryane Silva

IMAGEM: Pinterest

A esperança é um olhar de vó

A última vez que vi minha avó, faltava uma semana para o meu aniversário de doze anos. Durante o longo período em que ela esteve internada, eu a visitava todas as semanas, às quintas-feiras. Como não podia entrar no CTI, eu ficava na sala de espera ou em uma lanchonete, ao lado do hospital. Eu sabia que havia algo errado, mas não queria acreditar. Eu não tinha maturidade para entender que aqueles eram seus últimos dias. Continue lendo “A esperança é um olhar de vó”

O jogo semântico-poético de ele / ela acabou. Assumo a autoria do que escrever aqui para você. Sei que corro um risco absurdo, mas já passei por muita coisa nesses trinta e três anos de vida, então algumas palavras não podem trazer mais problemas dos que já tive. Na verdade, é por calar que eu apanhei das circunstâncias. E não tenho mais idade para cometer os mesmos erros.

Bom, eu queria que você soubesse de três coisas clichês: a primeira, é que eu estou com saudade. Um buraco imenso no peito, propriamente dito. A segunda, é que eu queria te ver (o que é uma consequência da ausência, pois não consigo imaginar que alguém se sabote sentindo falta de uma pessoa que não mereça), e a terceira é que eu não sei de nada. Nada de nada. Foi exatamente isso que eu disse quando me perguntaram de você. Respondi que a sensação que eu sentia era que perdi um órgão vital ou um membro que coça depois de amputado. A tua ida me doeu inteira. Continue lendo “…”

Tudo bem

Tudo bem se você não me amar. Passarei por todos os lugares em que estivemos e não sentirei o coração apertar de saudade.

Tudo bem se você não me amar. Eu já aprendi a evitar as músicas daquele tempo e a caixa de recordações nossas eu perdi durante a mudança.

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Eu não quero mais escrever sobre você

Na tentativa de me deixar com raiva
ou com algum sentimento negativo,
ao invés de me machucar,
você me reinicia.
Toda vez que você me magoa,
usando meu afeto como malabares,
eu me torno melhor e percebo
que o meu tempo na sua vida está esgotando.
Quando você pensa e planeja
uma vingancinha emocional e infantil,
eu noto, reflito, paro por alguns minutos
e peço para a vida te dar um pouco de sabedoria.
Não me subestime, eu não ligo mais.
E também não dói tanto.
Venho apanhando da vida há anos.
A sua indiferença,
na melhor das hipóteses,
é só um arranhão
e o reflexo da tua solidão calculada.

Aryane Silva