Lente de aumento

Um dia, há muito tempo, eu te disse que estava muito velha para fazer novas amizades. Você riu e falou da maneira exagerada como eu vejo as coisas. Eu ri de volta porque, naquele momento, meu desabafo era desnecessário. Eu tinha você, acima de tudo. Podia perder qualquer pessoa, que era para você que eu voltava. Nos falávamos quase todos os dias e, ao final de infinitas conversas ao telefone, você me dizia “isso de nos afastarmos não faz o menor sentido, você é muito importante. A pessoa mais importante”. Eu acreditei por alguns meses e, pela primeira vez na vida, relaxei os ombros, sabendo que eu tinha alguém por mim, independente do que eu fizesse, dissesse ou sentisse. Você estaria do outro lado, me esperando para uma reprimenda ou um abraço.

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A esperança é um olhar de vó

A última vez que vi minha avó, faltava uma semana para o meu aniversário de doze anos. Durante o longo período em que ela esteve internada, eu a visitava todas as semanas, às quintas-feiras. Como não podia entrar no CTI, eu ficava na sala de espera ou em uma lanchonete, ao lado do hospital. Eu sabia que havia algo errado, mas não queria acreditar. Eu não tinha maturidade para entender que aqueles eram seus últimos dias. Continue lendo “A esperança é um olhar de vó”

Seja luz

Quando eu decidi seguir um caminho espiritual, minha vida estava uma bagunça. Ou melhor, eu era a própria bagunça. Estava sendo quem não era e tomando atitudes que não combinavam comigo. Desde muito pequena, através de sonhos e intuições, eu sabia que o meu caminho seria diferente das outras pessoas. Mas ignorei o chamado porque medo de parecer boba diante das pessoas e acabar ficando sozinha. Não é muito diferente do que agora. Mas a minha opinião sobre solidão mudou bastante. Já explico.

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Quase leve

Fins de tarde sempre me dão algum tipo de tristeza, sendo ele de céu cinzento, azul ou com aqueles tons rosados que eu amo. E eu tenho sentido essa melancolia (isso: melancolia!) há um mês. Há exatos trinta dias, às cinco da tarde, abro a porta da sala, sento na varanda, acendo um incenso, boto a água do chá para esquentar e fico ali, inspirando e expirando, deixando algumas lembranças virem e irem.

Durante essas minhas reflexões diárias eu cheguei a uma conclusão: eu não sei lidar com pessoas difíceis. Não sei e não quero mais. Levei trinta e três anos para entender muitas coisas, as que permiti que fizessem comigo, o que fiz com os outros e o que eu não tenho inteligência emocional para lidar. Pessoas difíceis estão nessa minha lista.

Durante toda a vida, me foi ensinado que gente complicada, na maioria das vezes, tem um passado difícil ou não gosta de como vive. Fizeram-me acreditar que para ser bom você precisar aceitar tudo o que vier, de bom grado, porque é assim que deve ser. A vida inteira eu pensei que quando uma pessoa é grosseira, egoísta, manipuladora, indiferente, impaciente e arrogante é porque ela está em algum momento complicado ou, na menos pior das hipóteses, está em um dia ruim. Mas, recentemente eu descobri que tudo o que me disseram não é um padrão. Continue lendo “Quase leve”

Quando o caminho é infinito

Estou caminhando. Estou aprendendo. Não concluída, procuro algo que me defina, sem sucesso. Um dia estou bem, no outro nem tanto e tem aqueles em que não quero ser legal. Às vezes sou amorosa com quem não merece, indiferente com quem me ama. Sou dez em um dia só. Sou milhões de versões, sentimentos e transito por incontáveis pensamentos. Nunca paro. É, não paro mesmo. Continue lendo “Quando o caminho é infinito”

Agradecer [a graça descer]

A vida é muito rara. Muito. Ontem eu estava reclamando de um dedo com alergia provocada por uso de um anel vagabundo e hoje acordo com uma notícia triste. E, por trás dessa notícia, há uma pessoa que eu quero muito bem. E isso me fez voltar, por algum significado que ela jurou que eu tenho em sua vida. Continue lendo “Agradecer [a graça descer]”

(Re)construção

Viver é uma queda inevitável, como andar em uma rua esburacada de salto agulha.

É listar uma série de tarefas para realizar no dia seguinte e procrastinar.

É apanhar e se curar sozinha, sem remédio ou sopro ou abraço.

Estar de pé é mais que uma necessidade. É uma afronta, um desafio no meio de gente caída. E você não pode estar lá. Não pode e não deve.

Viver é sorrir, porque explicar dá trabalho. E fazer o outro entender, mais ainda. Continue lendo “(Re)construção”