Doze.

Sabe o que eu sou para você? Apenas uma injeção de ânimo, daquelas que doem um pouco na hora da aplicação e adormecem a pele. Acordei pensando nisso. Não sou nada que tenha grande significado. Deixei de ser a amiga que ouve as boas novas e comemora, o possível caso sem futuro, a mulher que você admira, a colega de trabalho que sempre te acompanha nos almoços diariamente. Sou um vazio absoluto, que você só preenche de presença quando precisa de alguém para escutar suas lamentações sobre uma vida que você mesmo julga tediosa e problemática. Então decidi não ser mais um depósito de negativas e adiamentos.

Lembro-me que chamei você para sair na semana passada. Coisa boba, cineminha a dois e conversa de amigos. Mas você ignorou meu convite, não deu uma resposta, fingiu que esqueceu. E eu, como uma imbecil, tinha preparado todo um roteiro, daqueles que a gente faz para agradar o outro. Agradar a quem, se você nem sequer fez questão?

Então, como não deu certo daquela vez, decidi fazer isso por mim hoje, pela minha alegria, pelo meu bem estar e deixei você de lado uma única vez. Coloquei minha roupa mais sexy que deixa o ombro à mostra, fiz uma maquiagem sedutora, daquelas que usamos para chamar a atenção e disfarçar a tristeza, peguei minha bolsa e fui ao cinema com minha melhor companhia: eu mesma.

Comprei a poltrona número treze, a mesma que foi pedida da última vez que fomos assistir o único filme de nossas vidas e quando eu ainda tinha alguma serventia para você. Olhei para o lugar vago ao meu lado direito e me ofuscou uma saudade cretina, daquelas que tocam na hora errada. Fechei os olhos por algum momento e senti sua presença ali. Quando voltei a abrir, um rapaz havia sentado ao meu lado.  Eu olhei e preferi acreditar que tinha de ser assim. Precisava me acostumar com a ideia que outros “fulanos desconhecidos” ocupariam seu lugar.

As luzes apagaram-se. Imagens surgiram na tela.  No desenrolar do trailer, o homem da poltrona doze me perguntou se eu queria pipoca. Eu não gosto muito, você sabe. Mas daria muito trabalho explicar o meu desinteresse pelo alimento. Decidi aceitar. Experimentei uma pipoca com gosto diferente: sabor do desconhecido. Logo eu, que não sou adepta à conversas fora de hora  e além de uma intimidade pré- existente. Mas admiti tudo: a pipoca fria e quase murcha, a conversa aos sussurros, as respostas que dei às perguntas do meu “vizinho” de cadeira, o abraço inesperado que ele me deu quando o ar condicionado foi cruel e o beijo que aconteceu no improviso. Demorei a acreditar que estava ali, entregue, deitada no peito de um cara que eu não sabia se gostava de ler, se trabalhava e o que pensava da vida. Quando as luzes acenderam, vi um rosto que não era o seu, um abraço mais comprido e um dos braços cheio de tatuagens até o pulso (coisa que você sabe que eu adoro). Era você interpretado por outra pessoa no beijo, no carinho, na atenção. Não era você nas mãos entrelaçadas, no “ o que você quer comer?”, muito menos no “me liga quando chegar em casa”. E acabei por recordar a sua indiferença em fingir que não enxerga meus sentimentos. Era outro ator em cena, quase uma traição permitida. Mas o beliscão da realidade me fez atentar ao cheiro de novo e a porta que se abriu ali, bem diante de mim, despedindo-se com um beijo em minha testa.

Não dá pra ser só um faz-de-conta. Não consigo viver de espera. Não preciso ser guardada em plástico-bolha, na última gaveta do seu armário. Não gosto de ser sua última opção de conversa, só porque não sou igual às suas amiguinhas idiotas. Não quero precisar da sua presença para me sentir viva. Não aceito mais o seu desinteresse para passar a impressão de mulher madura e compreensiva. Não me aproprio mais de nada disso em prol de um sentimento que nunca foi compartilhado.

E, sinceramente, não quero mais esta rotina de autocomiseração que me ilude e banaliza meu dia. Quero o fogo da expectativa e da novidade vindo ao meu encontro, coisa que você não está apto e não quer me oferecer.

Acabo de me dar conta de algo lindo: sem querer, abri a janela! Pode voar pra longe!

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