Bagunça.

Eu queria ser uma pessoa organizada, daquelas que guardam tudo em caixinhas etiquetadas, por ordem de tamanho e cor. Dessas que tem as roupas passadinhas, as gavetas arrumadas e os livros enfileirados por ordem de título na estante. Sem nenhum sapato jogado pela sala, nenhum manuscrito em cima do sofá com a caneta perdida, sem pilhas de revista no chão.

Queria ter a paciência para fazer as listas de supermercado, de pendências pessoais, de tarefas no trabalho, onde eu pudesse verificar sempre que me desse um “branco mental” e que eu fosse ticando a medida que as coisas fossem feitas. Seria bonitinho e útil. Perfeitinho, alinhado e ajeitado.

Queria poder seguir uma reeducação alimentar à risca, e não me trair com o brilho de um prato de brigadeiros recém-preparados. Tão pouco ficar eufórica com as comidinhas de festas infantis, onde a gente se esbalda e depois pede desculpas para a balança. Gostaria de poder me aliar às hortaliças, legumes e frutas como amigos de infância e jamais abandoná-los. Sem a esperteza de comer um bombom e esconder o papel nos bolsos para ninguém ver.

Queria saber falar inglês, espanhol e principalmente italiano (que eu acho uma elegância danada no sotaque), ter umas cinco graduações, duas pós-graduações em cursos que quase ninguém escolhe, ter viajado para Grécia, Portugal e conhecer sua história (mesmo que a economia não ande lá grandes coisas), ir ao Muro das Lamentações e chorar meus amores perdidos, descritos em pedacinhos amassados de papel. E tirar muitas fotos, claro! E sorrir vendo todas elas.

Queria saber andar de salto, gostar de comer frutos do mar, entender de vinhos, conhecer a literatura alemã e conseguir explicar sobre a mecânica dos automóveis.  Mas, será que se eu absorvesse tudo isso, eu seria quem sou hoje? Acho que não.

Eu tenho um quarto bagunçado, mas que me serve nas noites de filmes longos e boas gargalhadas. Meus livros estão por aí, e esse “por aí” é o lugar que o São Longuinho sempre guarda para me pregar uma peça. Minhas roupas são passadas na hora e não são separadas por cor, porque isso seria uma discriminação desnecessária e eu gosto de socializar tudo o que é meu, combinar da melhor forma. Meu cabelo é rebelde e eu corto bem curtinho, sendo contrária a todas as regras de estética e moda. Gosto de um bom tênis surrado, daqueles que as pessoas na rua olham com pena. Falo palavrão quando estou irritada e até quando estou feliz. Vou resolvendo as coisas no meu tempo, de acordo com prioridades. Se eu tiver de mal humor, não finjo ser a Chapeuzinho Vermelho: deixo à mostra meu lado Lobo Mau. Sou liberta de tudo o que é predefinido, certinho, organizado aos olhos. Gosto de aproveitar a essência das coisas e isso é minha marca.

O importante não é ser um “amorzinho de gente” para agradar os outros e ter todas as respostas na ponta da língua. O melhor é ser você mesmo, porque você foi fabricado em molde único. Ser a sua verdade, caminhar ao encontro do que acredita. Ser você perpetuado em sua bagunça física, mas ser absolutamente sensato em suas ideias, afirmações, pensamentos e conceitos.

Nada escrito, como o infinito.

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2 comentários sobre “Bagunça.

  1. Nào poderia deixar de comentar, afinal essa é descrição perfeita da pessoa que escreve, e se descreve tão bem a ponto de me encontrar, me indetificar !!!
    Parabéns amiga! seus textos são sempre ricos e instigantes!

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