Onze de outubro.

 

Se eu pudesse te dizer algo agora, eu afirmaria que aquele encontro casual não podia ter acontecido, como tento frisar isso em meu pensamento agora. Questiono o meu destino por que ele tem esta mania indiscreta de reconvidar (se é que esta palavra existe mesmo) pessoas que já se foram. E me antecipo, não permito que ele se justifique com a velha desculpa esfarrapada que já faz dez anos, tempo suficiente de ausência. Eu não conto as horas em relação a isso, tão pouco marco os dias esvaídos no calendário da parede. Simplesmente não quero mais saber. Morreu, sumiu, virou pó. Acabou. De uma forma estranha, mas terminou. E não adianta bater o pé, Sr. Destino! Apenas, conforme-se.

Mas, bastou uma troca de olhares de dez minutos para reacender tudo de novo. Dez minutos que fiquei ali, estática, impenetrável, impassível, rebobinando um filme de dez anos que estava guardado na gaveta. Um “esbarrar por aí” inesperado, mas que no fundo, eu sabia que aconteceria. Aconteceu exatamente no dia que tudo acabou: onze de outubro. Se é que acabou mesmo. Acho que isso nunca vai acabar e lá na frente resolveremos isso, você me disse e estava certo. Senti essa verdade presa em seus olhos e meu coração palpitou em uníssono. Não trocamos uma palavra sequer, mas dissemos muitas coisas um ao outro sem sentir. Nossos corpos trocaram informações sem a nossa permissão. Eu, tremendo por dentro e balbuciando um oi quase inaudível, e você com um sorriso de canto de boca tímido, como se estivesse me vendo pela primeira vez.

É, realmente parecia a primeira vez e a vida nos prega umas peças dessas. Você está mais imponente, carregava uma aliança na mão esquerda e reparou na minha também. Olhou-me de cima a baixo, como se quisesse interpretar um mapa de viagem. Enrubesci na hora. Quando éramos um, você não era assim. Carregava uma doçura de menino diabólico por dentro, bem travesso. E hoje? O que você é, pergunto-me até agora. Um projeto mal acabado de amor trancado a sete chaves. Fique despreocupado, eu também me transformei em um. E só me dei conta naqueles dez minutos, dentro de dez anos de um silêncio ensurdecedor.

Queria ser uma pequena terminação nervosa sua para conhecer o que você sentiu naquele momento. O tempo parou. Tenho certeza que lembrou o chocolate Laka entregue em mãos naquele outubro de dois mil e um, quando você ainda fingia carinho, mesmo quando tudo acabou, e que eu joguei no sofá, com desdém e raiva de ser obrigada a te ver como amigo. Lembrou o anel cheio de pedrinhas dado num dia muito chuvoso, que me fez chorar inocentemente emocionada. Dos natais que passamos um na casa do outro, dos fins de anos que vivemos um no outro e de todos os sorrisos, abraços, colos e certeza de que aquilo nunca iria acabar. Não acabou. Dentro de seus olhos eu vi isso. Deixe quieto. Cale-se. Emudeça este sentimento, como eu também fiz. Fará bem para nossas vidas.

Mas a imaginação voa… Sei que voa. Conheço você o suficiente para saber que ela criou asas e pousou aqui no meu ombro. Aterrissou na minha vida, cheia de questionamentos. Quer bisbilhotar, para saber como estou. Calma, vou sanar suas dúvidas.

Nada é mais como era antes. Dez anos mudam muitas coisas. Mudam a nós mesmos. Casamos, descasamos, mudamos de emprego, de casa, de estilo de vida. Isso acontece mesmo, independente de nossas preferências. Já dormi sozinha algumas vezes, algumas pessoas dormiram comigo, outras fizeram amor (não se espante, foi um amor de momento, paixãozinha à toa), alguns foram mais presentes, outros mais ausentes. Levaram-me para jantar em lugares caros, me fizeram surpresas à porta da sala de aula na faculdade. Alguns me causaram raiva, e até nisso você me veio à mente, lembrando que senti a mesma coisa por você quando disse que não me queria mais. Li as cartas que você me escreveu e rasguei uma a uma, bem picadinhas, e depois quis reconstituí-las com durex, mas já era tarde. Já fui amor para alguns, cama para outros, mas para você eu sei quem eu sou e nem precisa me dar maiores explicações. E você sabe o que é para mim.

Foi bom ver você. Foi bom amar você. Obrigada por tudo que me deu e que me dá até hoje. Agora, volte para a gaveta.

E que mais dez anos amadureçam a saudade que sentimos.

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