Velha infancia.

Hoje eu entrei numa delicatessen e sorri ao ver que meu chocolate preferido na infância era vendido lá. Na mesma hora enchi a cestinha com dezenas deles, sabia que eles trariam ao meu paladar as lembranças queridas da época que eu só tinha compromisso com a felicidade. Não que hoje em dia eu não tenha, mas é que atualmente os relógios, celulares e computadores não me fazem esquecer isso. Há alguns anos eu só queria ter uma gargalhada gostosa, uma boa brincadeira e nada mais.

Enquanto estava na fila do caixa aguardando a minha vez, fui povoada por alguns sentimentos cúmplices e recordações doces. Ri ao lembrar que eu tinha uma fixação pela letra “R”, que eu sonhava em usar saltos (coisa que eu não suporto hoje em dia), ser professora e ter um cachorro chamado Robie. E tinha de ser escrito desse jeito: nada de Roby ou Rob. Não! Tinha de matar a minha vontade. Resumo da ópera: Eu nem ligo mais para a letra tão querida, meus pés não suportam saltos de mais de cinco centímetros, restando apenas o curso para a profissão, que eu consegui concluir, embora não tenha seguido carreira.

Neste vasto tempo entre a paciência e os sete minutos de espera, lembrei que eu não tinha boa coordenação motora. E essa imagem não é tão antiga, pois toda vez que não consigo encaixar a chave na fechadura do portão lembro-me desta minha limitação. Amarro as coisas da forma mais estranha, já sabendo que não vai dar certo, mas continuo, vestindo a camisa de uma brasileira que nunca desiste de suas maluquices. Sempre que carrego muitas coisas nas mãos sei que pelo menos uma delas vai cair, e isso quando não são copos, pratos, espelhos. Tenho sérios problemas com coisas frágeis demais. Não consigo lidar com elas.

Mas o pior mesmo eram as brincadeiras que me exigiam um domínio motor que eu nunca tive. Bambolê é algo que não faz parte da minha lista de brincadeiras de criança. Já tive vários, coloridos, cheirosos, com brilho, mas eles sempre ficavam estacionados entre o vão do guarda-roupa e a parede, anos a fio. De vez em quando eu arriscava umas “reboladas tímidas”, mas não dava. Meu corpo não tinha sido feito para aquilo. Ioiô? N-E-M P-E-N-S-A-R! Até hoje não consigo entender como algumas pessoas tinham aquele poder todo de controle sob aquela pecinha redonda! Tive vários, quebrei muitos e não brinquei com nenhum. Simples assim!

Na verdade, meu problema é com coisas que vão e voltam.  Só depois de alguns anos que pude entender que esta lacuna vazia de brincadeiras infantis está de mãos dada com pessoas, cenários, sentimentos e atitudes que foram e que retornam quase que na velocidade da luz quando menos espero. Eu adoro o movimento leve (e às vezes intenso) que a vida tem, admiro sua capacidade de adaptação. Sei também que muita coisa desliza em nossos olhos quando isso acontece, mas tem vezes que tudo isso me deixa tonta. Dizem que o que é nosso sempre volta, mas eu torço o nariz para isso. Para mim, o que é meu nunca vai embora.

Eu queria ter alguns perfumes de volta, uns dedos esguios entrelaçados aos meus e um peito quente para que eu pudesse repousar meus cansaços e lutas. Queria que algumas portas abrissem novamente e que eu entrasse sem medo desta vez. Gostaria de ter dito algumas palavras que guardei, ter ligado para denunciar uma saudade camuflada, abraçar apertado e não deixar sair do laço. Desejaria ter subido uns degraus sem falsa modéstia e achando-me um máximo, ter gargalhado das minhas fraquezas e ter dado uma banana para todo mundo que quis me ver à deriva. Quis muita coisa. Mas é tanta coisa que eu não sei se vale, se cabe no espaço que há. Então o melhor a fazer é deixar intacto onde está, sem violar a embalagem.

Quero a alegria de momentos únicos, que eu sei que não voltarão. Todo aquele palpitar, calor e sorrisos sonoros a tudo que possa arrancar o que há de melhor em mim sem pudores. Se vai sobrar para o café da manhã de amanhã, não me interessa. O que eu preciso é de coisas que me garantam boas recordações lá na frente. Só disso que nós precisamos: de uma imagem que nos faça rir e de sensações que nos façam sorrir.

Talvez algum dia eu me aventure no pingue-pongue, mas acho que esse seria um grande passo.

 

 

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