Aonde iremos?

Eu conheci várias partes de você. Uma principiante, fresca, apaixonada até o último fio de cabelo e entregue. Um pedaço que ligava às três da manhã para perguntar se eu estava bem e não se importava se minha voz estava rouca, embebida de sono. Uma partícula de presença pintada à mão dentro de uma distância devastadora, que não media os metros da saudade (sabia que eram incalculáveis). Um bocado de preocupação nas recomendações diárias, no “bom dia” diário que não podia faltar e no “te amo” esticado, que era nossa ponte imaginária.

Não esqueço os sorrisos que dei ao ouvir sua voz no telefone e toda a euforia que desfilava nos finais de semana, desde o portão da minha casa, até a entrada da sua. Lembro-me das crises de riso no meio da rua que me pegavam desprevenida e que eram repreendidas pelo seu lado mais severo. Você não consegue segurar uma gargalhada até a piada perder a graça. Seu humor se revela antes do tempo. Sinto falta da espontaneidade das minhas risadas inconvenientes e naturais pela vida. Sentia-me como se ela me levasse pelos braços e me arrastasse para lugares desconhecidos. Era bom. Muito bom.

Falo com você e sinto fragmentos diversos, uns desconhecidos, outros largados pelo chão. Revive em minha mente um “eu” que queria ficar e um “você” que abria os braços para isso.  Vejo suas mãos nervosas, a voz trêmula e a minha curiosidade desperta em querer saber o que há atrás deste escudo. Eu olho, procuro, reparo os detalhes e nada. Há mais fatias de sabores ignorados em você do que eu pensava.

Nunca conheci você por inteiro. Tenho certeza disso. Vejo uns espaços desesperados por atenção, um eco ensurdecedor que cantarola uma canção triste, com sua liberdade presa em grilhões. Uma porção de gente mal desenhada, raquítica e desnutrida de amor. E pergunto em qual momento eu deixei de dar a você este alimento? Ou será que você não teve fome para comer o restante? Não sei dizer, eu só sei que alguma coisa está fora da ordem. O natural é que sejamos um só. Mas você, que sempre foi uma estrada em linha reta, virou um labirinto sinuoso. E eu me perdi de vez nesse caminho.

E eu ainda acreditava que haveria chances de me desvencilhar desta armadilha que meu coração chama de amor, mas que você acreditar ser um ponto final. O que acabou? Onde perdi a contextualidade disso? Não sei. O que eu tenho certeza que algo em mim está preso ao seu caminhar distante, ao seu respirar profundo carregado de saudade, à sua vontade de atravessar e chegar. Eu, presa em algo passado, e você descortinando um presente lívido. Aonde iremos?

Não irei a lugar nenhum sem você.

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