Um ponto sem final.

Neste domingo, eu só quero tomar um café da manhã demorado, abrir meu jornal preferido e ler a crônica da minha escritora preferida. Deixar o café esfriar e fazer mais um, fresquinho e fumegante, e deixar esfriar novamente, graças a uma leitura prazerosa.  Reunirei a família em torno de uma grande mesa para um churrasco delicioso, com uma conversa acalorada, cheia de lembranças e planos futuros.

Desejo terminar de ler aquele livro de linguagem difícil que estou protelando há meses, embora a história seja maravilhosa. Pintarei as unhas algumas vezes, na escolha incessante de uma cor de esmalte que caia bem. Dizem que as cores deles expressam nosso estado de espírito, mas não acredito muito nisso. Tentarei ver alguma coisa que realmente faça sentido na tevê, sabendo previamente que nenhum filme será do meu agrado.

Tentarei escrever alguma coisa que venha de dentro, para alguém que está fora consiga ler e se inspirar. Organizarei meus manuscritos que estão desordenados e largados em um canto da escrivaninha, perto do livro de vocabulário rebuscado, que me obriga a ter um dicionário nas mãos. Relaxarei meu corpo o máximo possível para receber a próxima semana com boa vontade, sem aquela animosidade típica das segundas-feiras cinzentas.

Certamente atenderei algum telefonema.

Lavarei alguma louça esquecida na pia.

Conversarei com algum vizinho que molhará suas plantas distraidamente.

Darei a mesma topada na quina da cama que me faz soltar um xingamento rápido e inaudível.

E pensarei em você.

E isso me levará àqueles fins de domingos tristes, onde eu tinha que me despedir de você, com aquele abraço que nunca quer terminar e com mãos entrelaçadas que não queriam se soltar. Eu olhava o início de nosso distanciamento semanal através da janela do ônibus e nele eu ficaria algumas horas, aguardando o momento de chegar em casa. Acendia a luz e tudo era breu, frio e sem graça sem a sua gargalhada e suas piadas que eu não achava graça nenhuma na hora, mas que depois eu ria sozinha. Agora é difícil sorrir com a ausência, o buraco quilométrico, cheio de profundidade que fica. Nem uma taça de sorvete de morango reanimaria. Nem isso.

O pior é que não há mais estes finais de semana com hora para acordar, mas sem tempo certo para ser feliz. Não há mais a expectativa das sextas-feiras que me fazia acordar com um sorriso bobo e uma alegria contagiante. Não há mais o seu prato preferido, nem o meu. O que há é um outro alguém que tenta atender aos requisitos, numa mistura de improviso insensato, com cópia plagiada de minhas habilidades. Eu escuto tudo isso e penso que talvez você esteja mais feliz assim mesmo e que já se esqueceu de tudo que nasceu e morreu. Pra mim, está em coma. Pra você, a cada dia morre mais.

Eu e minha tolice de achar que algumas ruas se cruzam e não se esquecem.

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