Antes, durante e para sempre.

Certas coisas a gente não diz. São coisas que vivem escondidas dentro da nossa sanidade, lacradas com cuidado, como um animal feroz, doido para se libertar das correntes e fazer estragos por aí. Algumas coisas, na verdade, nem precisam ser assim, tão escandalosamente ditas, elas apenas existem. E de uma forma ou de outra aparecem. Todas as coisas não precisam ser cogitadas pela boca através do exercício de cordas vocais: elas sempre estão presentes. E são presentes para você.

Nunca tive a oportunidade de dizer que seu café pouco adoçado é o melhor do planeta. Nem uma Starbucks faz um tão bom quanto o seu. Ele é o único que me fez torcer o nariz ao degustar, mas que causa um vazio estranho em minha xícara. Ela está ali, cheia de poeira criando raízes na pia. Meu café é fraco, doce demais. Você levou as medidas certas junto com você.

As nossas conversas à tarde, na mesa de frente à janela da cozinha eram especiais. Olhávamos para o pedaço de terreno que ainda faltava fazer e fazíamos planos sobre como preenchê-lo. O seu deboche das minhas ideias sem pé nem cabeça me iravam na hora, mas provocavam sorrisos bobos ao longo do dia. Claro que eu não te mostraria, essa é uma das coisas que eu escondia de você. Essa janela não é mais minha. É de um alguém que certamente palpitou em algo mais mirabolante que eu e teve êxito. As coisas mudam de lugar, estou aprendendo a lidar com isso.

Eu adorava os sustos que você me dava quando eu estava lavando a louça. Era uma palhaçada mais que bem vinda. Algumas vezes eu me assustava, é verdade. Outras, via você passar pelo reflexo da vidraça e fingia o susto só para ver você sorrir. Seu sorriso era luz em casa. Cada gargalhada era uma lâmpada que acendia. Hoje a casa vive às escuras. Nem um abajur ilumina a falta que você me faz.

Era especial ver vocês às escondidas lendo meus manuscritos e sendo atencioso com eles, passando cada página com o cuidado de quem segura um tesouro nas mãos. Logo você que sempre dizia que meus textos eram fracos, sem coesão e que precisavam de uma pitada a mais de criatividade. Ver seus olhos percorrerem o que meu coração rabisca é fascinante. Olhava pela fresta da porta como criança travessa, sem deixar você me ver. Hoje eu escrevo pra mim, pro meu sentimento mudo e para o vazio. Rascunho umas mil e quinhentas palavras por dia desconexas e guardo na gaveta da escrivaninha.

Você recém-saído do banho, com cheiro de alma fresca era bom demais. Eu olhava e ria como uma boba. Você não secava as gotinhas que escorriam dos cabelos molhados e eu ria ainda mais ao achar aquilo secretamente sensual. E você sabia, deixava que elas percorressem a testa, as têmporas, a costeleta e o pescoço, só para brincar com minha imaginação. Cai a chuva lá fora agora e eu não queria apenas as míseras gotinhas lascivas. Eu queria mais. Queria você inteiramente encharcado, pedindo para voltar.

Eu amava o timbre da sua voz, ora grave, ora manhoso, o seu medo do escuro quando acabava a luz do bairro, a sua dificuldade em fritar ovos e a sua leveza de ser quem é. Admirava o seu gosto musical, as coisas que me ensinava, a curiosidade que despertava em mim, o jeito de dobrar as roupas de cama e o jeito estranho de comer pipoca (salgada, com cobertura doce) e que eu aprendi a apreciar. Saboreava cada cantinho da sua existência, desde a sua cara de sono, amarrotada e desprotegida, até seu adormecer cansado e relaxante.

Hoje olho para tudo e não consigo encontrar mais nada. Apenas há uma caneta, uma folha em branco, um copo de café gelado e algumas lágrimas que se afogaram nele, na tentativa de saber aonde isso tudo foi parar.

 

 

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