Coração de farinha.

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Toda vez que eu quero ter uma conversa sadia e despretensiosa com alguém, ligo para algum “disque táxi” e peço para me buscarem onde eu estiver.  Posso estar de bobeira em casa e ir ao shopping que fica a dez minutos, ou no trabalho que fica à uma hora dela. Não importa. O importante é ter um taxista para papear aberto e distrair alguns poucos minutos do meu dia. Tenho certeza que o leitor vai achar que estou ficando louca e pensar: para quê pagar para conversar quando se pode conversar de graça com um amigo íntimo? Ah, meu caro, é simples: um amigo sabe muito de mim, até o que não precisa. Já uma pessoa de fora não vai envolver suas emoções nos conselhos. E nada melhor do que um taxista que no vai e vem da vida carrega muitas histórias. A melhor terapia de todas!

Dentre todos que me ajudam nessa terapia às avessas, tem um que eu morro de amores (e não se espante, é amor mesmo, paixão pelo nosso diálogo nada recolhido), que é o Seu Nélio. Quando abro a porta e vejo que é ele, é impossível esconder o sorriso. Sei que a viagem vai ser longa, mas curta demais para colocar os pingos nos is. É um senhorzinho, daqueles de cabeça branca, mas de coração cheio de palavras positivas. Desse tipo de gente que não damos nada, mas quando abre a boca, tiramos os óculos, debruçamos o olhar nela e não tiramos mais.

Só que ele não teve sorte esta semana. A fiel escudeira de viagem estava desanimada, triste, apenas com vontade de ir para casa. Não sentei no carona, como de costume. Escolhi o banco de trás e me encolhi nele. Não queria que ele notasse o meu abatimento. Mas ele notou. Perguntou por que eu estava calada. Nada respondi.  Prendi meu olhar na paisagem de fora, que corria pela janela. Ele perguntou de novo. Eu desconversei, dizendo que tive um dia difícil.  Ele sorriu de canto de boca. Não disse mais nada.

Quando cheguei à porta de casa, abri a carteira para pagar a corrida, não fiz questão dos dois reais de troco e sequer olhei para ele, como forma silenciosa de despedida. Mas ele não se conteve.

– Aninha (ele me apelidou assim, já que nunca digo meu nome), não tenha um coração de farinha por causa das pessoas.

Fechou a porta, fez a manobra e foi embora.

Entrei em casa e encontrei um amor me esperando com os braços mais abertos do mundo, uma família preocupada com meu atraso, um poodle fazendo a maior festa ao me ver atravessar o portão e uma comida bem feita. Então pude entender o que o que Seu Nélio quis dizer. Entendi e absorvi.

Há pessoas de todo o tipo no mundo: as que são felizes sem motivo, e também aquelas que só são felizes se provocarem o choro em alguém. Tem gente que anda na contramão da vida o tempo inteiro, querendo forçar uma ultrapassagem desnecessária quando a via está livre. Querem causar o abandono emocional por onde passam para que seus pés pisem um degrau acima. Triunfam através do mérito equivocado, sem aplausos, sem abraços.

Para essas pessoas, eu dou o melhor de mim a cada dia. Não entrego em suas mãos, claro. Deposito no espelho, e ele responde que estou mais forte e decidida do que antes. E esse é o melhor troféu: ser seu maior amor, sua maior conquista, sua maior felicidade. Ser apenas você, sem precisar da lágrima do outro para se sentir única!

Entendi o recado, Seu Nélio!

Não tenha um coração de pedra incapaz de perdoar, mas também não suporte um coração de farinha, capaz de passar por cima de tudo e desmanchar.

Tenha um coração para amar!

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