Por lembrar de bicicletas…

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Se você me perguntar quando eu passei a me entender por gente, eu diria, sem dúvidas: numa tarde de domingo, em pleno mês de Julho. E lembro como se fosse hoje: os portões da casa de Bento Ribeiro escancarados, pessoas entrando e saindo e uma fumaça de churrasco voando até o céu, formando uma nuvem de aroma saboroso. Comemorávamos o aniversário de seis anos de uma das primas. A casa, como de praxe nesses dias de festa, estava cheia de tios, vizinhos e primas que não paravam de chegar. Sempre tinha uma tia que gritava feliz vendo a outra entrar, crianças que mostravam seus novos brinquedos às outras e adultos com seus copos de cerveja na mão, falando do Fla x Flu da última quarta. À exceção do contexto, são desses dias que eu mais sinto saudades. Da festa, arruaça bem vinda, numa casa onde as emoções eram sempre mudas.

Neste dia, meu tio resolveu presentear sua filha com uma bicicleta Caloi Ceci, aquela rosinha, que toda menina da minha época sonhava em ter. Quando o pai chegou com o presente, ela ficou eufórica e sem abraço de agradecimento, montou na magrela e foi para rua, louca para estrear o brinquedo. Ao chegar do lado de fora, foi aquela bagunça! As crianças da vizinhança bisbilhotavam os detalhes da bicicleta, enquanto minha prima pirralha se sentia “a tal”. Ela deu várias voltas, sorrindo para todos, indo à outras ruas e voltando, numa velocidade que me deixava tonta. Eu, como prima mais velha, tomava conta e observava com um brilho cretino nos olhos.

Depois de algum tempo, ela cansou das pedaladas. Largou a bicicleta no meio fio, perto de mim e foi almoçar. E eu só precisava dessa oportunidade. Então, quando ela se afastou, levantei a bicicleta, subi nela, acertei meus pés nos pedais e dei impulso. Porém tinha esquecido de um detalhe pequeno, mas importante: eu não sabia andar de bicicleta. Mas estava tão obstinada em aprender que não quis saber. A cada metro, um tombo. Batia nos muros, nos postes, em outras crianças que também andavam de bicicleta. Resumo da ópera: quando minha prima voltou, uma hora depois (acho que foi bem esse tempo, já que naquela época parecia uma eternidade, e hoje em dia uma hora não dá para quase nada), ficou assustada ao ver o estado da bicicleta: arranhada, amassada e até meio retorcida. Ela começou a chorar, carregou a magrela para dentro da casa, o que fez a festa parar para ver o que acontecia. E claro, me garantiu uma bronca quilométrica do meu tio.

Esse foi o momento que me reconheci. Pela primeira vez na vida, tive a noção de que alguns atos ruins trazem desagradáveis consequências. Percebi que podia aproveitar a situação para tirar vantagem de alguém, acreditando que jamais seria descoberta (santa ingenuidade!), calculando cada passo dado. Talvez, se minha prima naquele dia deixasse o apetite para depois, isso não teria acontecido. Ou melhor, se ela pensasse como pensamos hoje, adultas com mais de vinte, certamente ela não deixaria a bicicleta na rua. Mas éramos duas crianças apenas. Duas cabecinhas verdes, sem a preocupação com o amanhã. Só queríamos aproveitar a chance. Achávamos que éramos livres, sabíamos que levaríamos uma puxada de orelha, ou até algumas palmadas, mas nada além disso. Era um preço justo a pagar para provar um pouquinho daquela felicidade.

Talvez, se isso acontecesse hoje, para mim não seria tão sofrido. Iria a uma loja, compraria uma nova (e igual) parcelada em dez vezes e daria de presente. Hoje sou adulta, trabalho, e ganho meu próprio dinheiro. Numa rotina tão corrida, a gente não sabe mais consertar os erros por outras vias. É comprando uma réplica e colocando no lugar. E ficam todos felizes para sempre.

Mas naquela época não tinha ninguém que pudesse me defender. Eu estava errada e ponto. Tinha de ser repreendida e ponto. Fiquei de castigo por semanas e ponto. Minha prima nunca mais teve uma bicicleta, e eu (que vergonha) nunca aprendi a andar.

A graça de olhar o passado é que você pensa como seria simples de se resolver certas coisas se lá atrás você tivesse a cabeça que tem hoje. Naquela época, eu me sentia desprotegida de uma forma que dá até medo de lembrar. Hoje sou dona de mim e sei arcar com esses tropeços. Por ser uma mulher adulta e  responsável, sei o que pode e não pode, a já batida lei dos direitos e deveres. E saindo das coisas para as não coisas, se eu conquisto o coração de uma pessoa, eu cuido, me dedico, entrego o meu melhor a ela, sem tentar tirar nenhum tipo de vantagem (acho isso miserável demais). Pessoas não são usáveis, bicicletas sim.

Soube que essa minha prima teve um filho recentemente. E sei que ela, no silêncio dessa distância que nos separa, roga sempre: que nenhuma criança faça com meu filho o que a Aryane fez com a minha bicicleta!

Assim seja, prima!

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