Travesseiro.

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Quando eu era pequena e morava com minha irmã Aline, nós brincávamos de gritar no travesseiro. O estranho da brincadeira é que nunca tinha um vencedor ou um perdedor: bastava gritar e pronto. No final dos berros, eu sentia minha garganta arranhar e ela sempre ria disso. Era engraçado a relação que tínhamos por causa da diferença de idade. Ela caçoava de mim e ria, e eu aceitava, o importante era estar junto, participar de alguma coisa do mundo dela.

 Hoje cada uma seguiu seu rumo. Ela se casou, teve um filho e se divide na tarefa trivial de ser mãe, profissional e esposa. Eu, com vinte e oito anos, não atendo pela alcunha de mãe, mas também tenho meu papel de esposa. Além disso, me encarrego da função prazerosa de escrever sobre a vida, como faço nesse exato momento.

 Hoje eu queria ter uma máquina para me transportar, não para o futuro, mas para o passado que já está um pouco distante, pegar um travesseiro gordinho e gritar minhas dores até perder o ar. Mandar para lua todas aquelas pessoas que riram de mim um dia e que hoje não faz diferença nenhuma. Exorcizar todas as marcas que criaram monstros na minha imaginação e que até hoje se revelam quando eu menos espero, mesmo que eu saiba que sou grandinha o suficiente para não acreditar neles. Queria abrir algumas portas e entrar correndo, abraçar quem eu disse lá atrás que odiava e que a linha da vida tratou de esquecer. Queria mostrar o “dedo do meio” para algumas pessoas que debocharam do meu otimismo e subestimaram minha inteligência. Apagar alguns fantasmas, colocar minha viola no saco, voltar e fazer as pazes com o tempo, esse senhorzinho tão sábio quanto pirracento, que acha que eu tenho que aprender a cair e me levantar na marra.

 Eu não preciso de análise, remédio, compras em shopping, amigos pendurados no telefone me aconselhando por horas, sorvete de morango, tangerina, nem nada dessas coisas. Só preciso de um travesseiro, que me entenda e me aguente.

 E me aguarde, me abrace e diga que toda essa besteira de baixo astral vai passar.

Aryane Silva

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2 comentários sobre “Travesseiro.

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