Ninha

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Há uns dez anos que trabalhei como secretária para uma mulher que me chamava de Ninha. Nos primeiros dias, eu tive vergonha de corrigi-la. Imagine só, eu recém chegada, crua de empresa ainda. Mas aquilo martelava minha cabeça todo santo dia, eu me perguntava qual era a sua dificuldade em gravar meu nome, se nós trocávamos uns quarenta e-mails em média por dia e se eu usava um crachá com meu nome bem visível no peito.

No início, eu até achei graça, mas depois aquilo começou a me incomodar. Pela primeira vez na vida, passei a gostar do meu nome e sentir o peso da importância que ele tinha para mim. Depois de alguns meses, questionei à ela o porquê de ela não me chamar de Aryane, como qualquer ser humano normal. Ela me disse: – Chamo todas as minhas secretárias de Ninha, porque para mim é indiferente quem chega, quem pede demissão. Vocês são indiferentes.

É, pode parecer plágio do filme “O Diabo Veste Prada”, mas não é. Foi um caso real, vivido por mim e jamais esquecido.

Depois que eu ouvi aquilo, pensei no quanto a gente empurra a vida com a barriga às vezes, optando em apenas ser o suficiente, quando podemos ir além para sermos melhores. Como somos apegados à nossa zona de conforto, esquecendo que somos capazes de surpreender a vida e nosso próprio reflexo no espelho. Que nossos pés e mãos não estão atados, nossa voz não está abafada e que nada nos impede de fazermos a diferença.

Para ela eu era só mais uma. Só mais um corpo sentado na cadeira, atendendo seus desmandos. Só um número, uma matrícula, uma funcionária como tantas outras. E pode até ser que ela estivesse certa até a página dez. Na décima primeira eu aprendi e me tornei diferente.

Hoje em dia eu vou fundo, testo minha resistência com os reveses da vida, dou a cara para bater, ultrapasso meus limites e crio novos, sempre me desafiando. Não me contento em ser poça, quando posso ser oceano, não me aprecia o emprestado, quero o que é meu, o que foi conquistado pela minha persistência. Eu luto todos os dias para provar a mim mesma que eu tenho direito a um lugar só meu, como todo mundo, que uma estrela lá no alto me espera. Eu que eu jamais desistirei de mim.

Eu ainda vou esbarrar com ela, acredito nos acasos do destino.

Quero ver ela olhar para mim e ter a coragem de me chamar de Ninha de novo.

Aryane Silva

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