Bem me quer, ou mal me quer?

download

 

Esta semana vi uma entrevista com uma jornalista (não lembro o nome dela), onde ela dizia acalentar uma síndrome do pânico há trinta anos. Detalhe: disse isso com um sorriso no rosto. E ainda contou que, quando fazia reportagens de rua, o cinegrafista só podia enquadrá-la do ombro para cima, pois ela tinha tanto medo, que não conseguia fazer a matéria se não estivesse de mãos dadas com o entrevistado e com essa revelação, arrancou gargalhadas da plateia do programa. É bem isso mesmo: rir para não chorar.

Há uns meses atrás, eu achava frescura todas essas “doenças” emocionais.  Depressão, bipolaridade e cia. “Coisa de gente desocupada”, como eu mesma dizia em meu egoísmo preconceituoso. Até que a mão do destino me pegou à força e me jogou no balaio das pessoas portadoras dessa síndrome. E mais uma vez tive que rever meus conceitos.

Pânico, medo, pavor, todo mundo sente em algum momento da vida. Seja sendo assaltado, ou sofrendo um acidente de carro, ou prestes a perder um familiar querido. É mais do que normal. Mas quando esse “medinho” vira um “medão” e te limita, é sinal que a coisa não é tão simples assim.

E isso me fez lembrar um poema bem conhecido de Eduardo Alves da Costa, intitulado “No Caminho com Maiakóvski” , simples, mas de grande significado para isso: Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada”. A Síndrome do pânico é exatamente assim: cada dia, tira um pedacinho da gente. Nosso papel nessa luta e reconstruir essas partes arrancadas sem permissão. E posso afirmar com toda certeza e letras que eu conheço: não é uma das tarefas mais prazerosas de se fazer.

Desde maio, quando me descobri assim, passei a entender muita coisa. Essa síndrome te dá os dois lados da moeda: o riso e o choro, o desânimo e a coragem. Além disso, te oferece a oportunidade de autoconhecimento, como se você saísse do seu corpo e olhasse para si, como no filme Ghost (é a única cena que me vem à cabeça depois que cheguei a essa conclusão). Os espiritualistas dizem que é um momento em que a vida cobra mudanças, mas acho que ela não seria tão cruel de exigir algo usando desse artifício tão dolorido. Prefiro acreditar que é quando a bomba explode, e a gente vem carregando essa bomba por tempo demais.

Cada dia é um grãozinho. Uma pecinha de quebra-cabeças que você levou quarenta e cinco minutos para achar em meio às outras quatrocentas e noventa e nove restantes. Cada amanhecer, um passo. Se antes eu não conseguia sair do quarto, hoje eu decidi que irei até à sala. Amanhã, até à cozinha. Na próxima semana, até à esquina. Quinze dias depois, até o supermercado. No próximo mês, até o bairro vizinho… Até que você vai, com a bolsa cheia de remédios, o coração cheio de medos e quando vê, está em outro país, tirando foto em frente à arquitetura barroca do local, sobrevivente de trocentos anos. É assim que se sente quando se recupera: ter vivido mil anos, mesmo sendo meses.

Hoje em dia, mesmo sabendo que não estou cem por cento ainda (aliás, quem está?), minha sede de vida e fome de alegrias aumentou. Quero todos os carinhos, os amigos mais perto, conhecer gente nova, provar a culinária que meu paladar ainda não conhece, tomar banho de chuva, viajar, aprender novos idiomas, conhecer novos artistas, abrir meus braços para o novo. Sim, quero e preciso. E acredito que isso deveria ser uma lei universal, onde todos pudessem desfrutar dessas sensações.

Eu quero todos os amores, as cores, os sabores e as rimas perfeitas e felizes que a vida pode me proporcionar.

 

Aryane Silva

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s