Cadeira

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Ontem ganhei de presente uma nota de dois reais, dessa remodelada, que parece de banco imobiliário. Eu, que sou fissurada por miniaturas, sejam elas do que for, adorei. Guardei na gaveta do criado-mudo, cheia de cuidado e toda serelepe.

Isso me remeteu a uma lembrança mais remota, de anos atrás (muitos deles), quando o plano monetário mudou do cruzeiro para o real. Um dos meus tios chegou à minha casa e me deu uma nota de um real. Fiquei com os olhos brilhantes ao ver aquele papel verdinho. Ele pediu que eu guardasse aquela nota com todo o cuidado, já que a moeda ainda estava em transição. Mesmo tentada em gastar no Seu Jorge, um vizinho que vendia doces de leite com amendoim deliciosos, eu resisti.

Dobrei a nota em várias partes, até que ela ficasse bem quadradinha, subi em um banquinho e guardei em um potinho de barro, na primeira prateleira da estante de mogno da sala. Achava que ali o meu dinheiro estava a salvo e volta e meia eu dava uma olhada para ver se estava tudo certinho.

Até que um dia, ao voltar do colégio, dei uma checada na minha fortuna e meu dinheirinho não estava mais lá. Entrei em desespero, procurando por todos os cantos da casa, perguntando para os outros e nada: a nota simplesmente sumiu. O que me deixou frustrada não foi o dinheiro ter sumido e sim o cuidado que eu tive com aquele pedaço de papel, que foi absolutamente em vão.

Assim acontece com algumas amizades minhas, que chegaram fazendo aquela festa e se foram, abandonando os confetes no ar, os instrumentos no chão, assim, sem mais nem menos. Hoje em dia eu tenho um entendimento maior dos movimentos da vida e sei que alguns assentos em nosso coração tem de serem vagos para que outras pessoas possam ocupa-los. Acredito em uma reciclagem do Universo, que chacoalha nossas verdades para que elas sejam valorizadas por novas pessoas.

Amizade, para mim, é algo bem sagrado. Uma relíquia. Se eu pudesse comparar a algo, diria que é tão importante quanto o brilho de uma estrela. É intocável, mas tem que me tocar profundamente, mudar o teor dos meus dias.

Mas eu lamento. Fico triste quando corações amigos perdem a sintonia e não se reconhecem mais.

É como deixar uma cadeira vaga, quando há tantas outras esperando alguém sentar-se.

Um vazio desnecessário.

Aryane Silva

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2 comentários sobre “Cadeira

  1. Aryane, adorei a associação que você fez com os cuidados para com a sua “fortuna” e a amizade. Em vez de procurar os amigos que deixaram os assentos vagos no meu coração, me preocupei em examinar minha consciência para ver em quantos corações eu posso ter deixado minha cadeira cativa. Afinal é errando que se aprende, não é?
    Um beijo,
    Manoel

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