Resistência

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Dentre as trilhões de coisas que me irritam, eu classificaria uma como a pior: resistência de chuveiro queimada. Eu só tomo banho quente, independente da estação do ano, sendo ela gelada ou insuportavelmente quente. Xingo todos os palavrões possíveis, pois sempre acontece em um feriado nacional ou em pleno domingo à noite. Essas pecinhas nunca escangalham em dias úteis, em horários comerciais.

Até o dia em que eu passei por uma prova de fogo. Morava sozinha e, depois de uns quarenta minutos de um banho quente e relaxante, começo sentir algo gelado cair sobre meus ombros. Um “ai que droga” foi pouco. Estava atrasada para o trabalho e pensei que na volta, lá pelas onze da noite, teria de tirar meus dois casacos, minha calça quentinha e encarar um banho gelado, em pleno mês de maio. Sabia que os tais “pulinhos” não seriam eficazes em um banho frio, então decidi eu mesma comprar a tal peça e trocar.

Com uma perspicácia adquirida com o tempo, anotei todas as informações escritas no chuveiro (nunca é demais, até um código de barras), troquei de roupa e fui à procura de uma loja de materiais de construção. Por sorte tinha uma bem perto, na rua de trás. Cheguei lá afoita, enquanto o dono ainda levantava as portas do estabelecimento. Implorei para que ele me vendesse logo a tal resistência. Ele leu minhas anotações no papel e riu, com certeza pensou que de tudo que estava ali anotado, ele só precisaria de duas informações no máximo.

Com as luzes ainda apagadas, entrou na loja e pegou o objeto causador do meu mau humor. Quinze reais por essa merdinha? Pensei. Mas paguei e voltei para casa, correndo. O homem ainda gritou, perguntando se eu saberia trocar.  Que pergunta mais besta que se faz a uma mulher. Claro que eu não sabia, mas teria de aprender.

Cheguei em casa, sabendo que acabara de perder um dia de trabalho, porque aquilo demandaria tempo. Liguei e avisei que não iria, sem explicar o motivo. Desliguei o disjuntor (sou esperta e bem medrosa) e comecei a imaginar se eu precisaria de alguma ferramenta. Nada, não precisaria de nada, e percebi isso ao abrir o chuveiro. Era um trocinho ridículo, de encaixe. Tirei uma, coloquei a outra, fechei, liguei novamente o disjuntor e torci para não ser eletrocutada. Quando abri a torneira, água quentinha de novo! Sorri. E me senti espetacular! Fiz uma coisa de homem, que máximo!

 Ok, dei uma volta gigantesca para comparar este fato real a algo também real: pessoas. De uns acontecimentos para cá, a primeira recordação mais próxima que tive foi essa, caro leitor. Você há de concordar comigo que existem pessoas com as quais temos de ter uma paciência de monge tibetano. Gente que é amor, mas que tem dias ruins e acha que pode descontar no primeiro que aparece. Eu nunca tenho a sorte de ser a segunda ao encontrar essas criaturas. Sempre tomo na cabeça. A pessoa faz uma, duas, três vezes, duzentas vezes e a gente segura, fervendo por dentro. Até que fica tão insuportável que a gente desiste. Larga de mão. Solta palavrões mentais, vira a cara, fecha o livro e torce para não lembrar mais da história que acabou de ler.

Tem gente que não sabe amar. Gente triste demais que contagia. Gente que não sabe receber um elogio, mas só elogia o outro em dias santos, feriados ou quando teve uma boa noite de sono. Gente que não sabe a que veio, mas manda todo mundo ir à merda quando o café esfriou enquanto ele lia no jornal sobre o Fla x Flu de quarta-feira. Gente que soca quem ama e aplaude quem a odeia. Dá pra entender? Não, eu nunca vou entender.

Um dia a gente cansa. Cansa de ser legal, de se preocupar, de levantar o astral e não receber um sorriso em troca, de pintar o corpo como a Globeleza e nunca ser notada pelo que faz de bonito. E, antes que você diga ou pense, a vida é troca sim, não apenas material, já que sentimentos não se compram, se conquistam. Seria hipócrita em dizer que quando digo que amo e recebo um “uhum” de volta, eu fico feliz. Mas existe aquela velha máxima: cada um oferece o que pode.

Se eu sei trocar uma resistência de chuveiro, também preciso aprender a trocar pessoas do centro das minhas atenções. É hora de inverter posições dos móveis, soprar boas-vindas para outro lado, abrir o coração para quem não tem medo de entrar.

Se eu não fizer isso, das duas uma: ou sairei queimada como uma resistência, ou a vida me jogará um balde de água fria para eu aprender.

 

Aryane Silva

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4 comentários sobre “Resistência

  1. Aryane, você mal me conhece virtualmente e poderá achar que sou exagerado, mas essa sua postagem está espetacular. Com toda a volta que você deu para explicar sua necessidade de diferentes trocas a crônica ficou perfeita. Redondinha, redondinha. Posso até dizer que você foi muito feliz na sua didática. Uma coisa que me animou é que eu sou um amigo virtual recém chegado ao seu blog e já estou me candidatando à sua nova safra de amigos já me matriculei no cursinho para fazer vestibular na sua importante opção de abrir o coração para quem não tem medo de entrar.
    Eu detesto trocar resistências de chuveiro, mas já troquei tantas e não “maltratei” nenhuma que por intermédio delas tive a grande oportunidade de concorrer a amigo em perfeito acordo com o seu centro de atenções.
    Putz, esse comentário virou postagem, mas valeu a pena, rs…rs!
    Um beijo,
    Manoel

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