Dores dúbias

Amarra

 

A primeira vez que eu me lembro de ter sentido dor, foi aos sete anos. Voltava da explicadora à tarde, acompanhada de minha irmã. A Tia Sônia (como todos nós a chamávamos) era uma mulher meio gordinha, que cheirava a cigarro e vivia com seu bobes no cabelo. Tinha unhas grandes e vermelhas e morava perto da minha casa. Lembro que não era a pessoa mais paciente que eu não conhecia, mas todos diziam que ela era fera em explicar as matérias. Disso eu não me recordo muito bem.

Era um típico dia de primavera. O anoitecer acontecia depois das oito da noite, as ruas ficavam cheias de crianças brincando de amarelinha, soltando pipa e andando de bicicleta. Eu carregava uma mochila pesada e minha irmã mais velha Aline, como sempre, sem paciência nenhuma para meu caminhar lento: – Anda, Aryane! Lerda! – ela dizia. Mas eu não conseguia ir mais rápido do que aquilo.

Até que numa dessas minhas tentativas de agradá-la (a gente sempre tem uma ideia muito vaga na infância o que é de fato atender demandas), apertei o passo de uma forma tão desengonçada, que tropecei no cadarço do tênis e caí. Ralei os dois joelhos no asfalto quente, em pleno mês de novembro. Não conseguia me levantar por conta da mochila pesada que me empurrava ainda mais para baixo. Minha irmã, ao invés de me ajudar, parou, colocou as mãos na barriga e começou a rir, até perder o ar (por favor, não a odeiem, ela tinha catorze anos e nenhum “aborrecente” nessa idade costuma ser solícito). Eu fiquei ali, fritando, com uma dor que parecia me rasgar de fora a fora. Sem alternativa, comecei a chorar.

Chegando em casa, fui paparicada pela minha avó, como sempre. Levei algumas semanas para me recuperar, já que me machuquei em um lugar do corpo que sempre dava uma topada, o que fez minhas feridas abrirem diversas vezes. Hoje olho para as duas marcas escurecidas que ficaram nos dois joelhos, vinte e um anos depois e acho graça. Elas não se apagaram, como minha lembrança também não.

Cair faz parte da vida. É inevitável que uma vez o outra estejamos beijando a lona. Algumas vezes, será apenas obra do acaso. Outras, teremos umas mãos bem maquiavélicas para nos empurrar. Fora aqueles que não contribuíram, mas torceram tanto em silêncio, que servem de plateia para nossa queda. Muita gente vai rir dos nossos caminhos, do jeito que andamos, da forma como olhamos para a vida. Fazer o que, existe todo o tipo de gente!

Há uma diferença gritante entre agradar e amar por vontade própria. Quando buscamos apenas atender uma expectativa, certamente o tiro sairá pela culatra. O alvo, que é a vaidade daquela pessoa, não será atingido se não estiver ajustados aos nossos desejos. E quando não nos encontramos com nossa vontade pessoal, o que era para ser incrivelmente sedutor e prazeroso em ser compartilhado, vira frustração e mágoa. Quando fazemos algo para alguém por amor, não importa se seremos expert naquilo ou aprendizes desastrados: será bom para os dois, pois tudo que não espera feedback é mais livre para acontecer.

Colocamos expectativas no outro quando não fundamos a base dos nossos quereres. É como colocar alguém em frente ao espelho e querer ver nossa própria imagem refletida. É não saber o que fazer com a nossa identidade e verdade. É caminhar na corda bamba da ilusão.

Todas as dores despertam algo que está errado. Algumas ensinam, outras ferem apenas por crueldade. Umas são tapas na cara que levamos do destino para acordarmos. Quando genuínas e não causada pelo capricho dos outros, vale a pena suportar.

E vale a pena recordar de sempre checar os cadarços também.

 

Aryane Silva

 

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3 comentários sobre “Dores dúbias

  1. Aryane, é tão gostoso ler o que e como você escreve que até fico com dó do seu tombo. Embora sua cronica explique as diversas modalidades de tombos e as utilidades ou não dos mesmos, ainda fico querendo ver sua irmã cair. Deus que me perdoe, mas não vou mentir sobre a minha intenção momentânea. Claro que vou pensar melhor e concluir que tudo é um aprendizado e que você está forte, feliz e acabou por aprender a se preocupar com o amarrar cadarços, rs…rs!
    Não a conheço mas acho que você tem o coração parecido com a sensibilidade que usa para escrever. É um amor de pessoa. Sou fã dessa amiga querida.
    Beijos,
    Manoel

  2. Oh Manoel querido ! Essa minha irmã malvada se tornou uma das minhas melhores amigas! Acredite , ela é do bem… RS obrigada com a atenção dispensada aos meus escritos. É sempre motivo para minha alegria! Beijos!

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