Palavras apenas

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Eu adoro pessoas inteligentes e não me refiro àquelas que leram dois mil livros na vida e falam de obras de arte com desenvoltura. Gosto de gente crua, despreparada, mas que tem um jogo de cintura com a vida e as relações humanas, sabendo separar o joio do trigo como uma cozinheira habilidosa que cata feijão. Essa galera me encanta por sua praticidade em lidar com o oito e o oitenta. Essa coisa de meio termo (falso equilíbrio) nunca me seduziu. Algumas situações de “mata-mata”, vale lembrar: ou é ou não é. Simples assim.

Ano passado foi um ano do cão para mim, como escritora. Por ainda não ser conhecida, não posso me limitar a ter apenas um blog e aqui postar em paz, sabendo que milhares de pessoas lerão minha voz. Infelizmente eu tenho de usar todos os artifícios possíveis (facebook, instagram, twitter, sinal de fumaça, anúncio em jornal, bilhete, carta, e-mail, conversa de corredor, código morse) para propagar meus escritos por aí. Não é uma questão de opção e sim de necessidade.

Assim, criei laços virtuais com algumas pessoas que nunca vi na vida, mas que sem querer tornaram-se importantes para o meu trabalho. Gente que curte de Brasília, que comenta lá em Porto Alegre e compartilha em São Paulo. Gente que espera ansiosamente meu livro ser lançado em Minas Gerais, gente que até me ofereceu a casa para que eu ficasse no Maranhão. Por isso eu gosto tanto de gente esclarecida, que respeita meu trabalho em sua totalidade e ainda tá um tom carinhoso a este tipo de interação.

Mas, no meio desses, também existem pessoas que, em pleno ano de dois mil e catorze, não sabe separar o artista de sua criação, misturando tudo no caldeirão das percepções. Faz parte do meu trabalho divagar e viajar por todas as searas, do luxo ao lixo, do caos à união. O escritor é só um veículo que faz a ponte entre a ideia e a concretização através de palavras.

Não é porque escrevo sobre saudade, que de fato estou parando de comer e dormir por conta de um amor caprichoso que não quis ficar. Nem quando rascunho sobre superficialidades, falo sobre possíveis amizades minhas que sejam rasas, até mesmo porque não costumo cultivar relacionamentos com corações onde eu não possa mergulhar de cabeça. Quando eu escrevo sobre solidão, não necessariamente estou trancada em um quarto escuro e monocromático, reclusa por vontade. Nem sempre sou o que escrevo e o que me deixa mais pê da vida é que quando eu  aceno meu eu através das palavras, as pessoas não percebem. Olhos sempre presos no copo meio vazio.

Eu duvido que Álvares de Azevedo tenha se apaixonado por uma mulher inexistente e por isso tenha definhado. Como também desconfio que esta história de Capitu e Bentinho tenha sido real (ouvi outro dia discutirem sobre a veracidade dos fatos). Será que na época de Vinícius de Moraes, quando compôs Garota de Ipanema, ele estava morrendo de amores por algum mulherão que caminhava pela praia? Será que alguém chegou a cogitar essa possibilidade? E Renato Russo? Será que existiu uma Mônica em sua juventude?

Numa época onde a palavra tem poder de uma forma negativa, como indiretas em rede social pouco sociável, abreviações esdrúxulas e expressões ridículas, eu recolho minhas palavras como lápis de cor ao final da aula e, se antes eu tinha cuidado, agora me tornei uma neurótica  com medo que esse feitiço que possa se virar contra mim.

Gente boba, como dizia Cassia Eller, “são palavras apenas, palavras pequenas, palavras… momento”.

 

Aryane Silva

 

 

 

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2 comentários sobre “Palavras apenas

  1. Ai meu Deus, não foi nada direcionado a você não, pelo amor de Deus! Mas foi em relação a postagens que faço em outras mídias. Mas você é um querido, tá? Beijo!

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