Como tratar alguém que te vê como utilidade, sendo que o mais bonito em você é a sua essência?

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Acho que eu sou meio panacona desde sempre. Lembro que na segunda escola na qual estudei, tinha uma inimiga unilateral (já que eu nem esquentava para ela). Seu nome era Joice. Maior que eu, mais velha e infinitamente mais esperta. Um dia eu cheguei na sala de aula toda serelepe, ostentando as minhas duas lapiseiras de ponta removível que ganhei da minha irmã. Parece pequeno, mas naquela época não usar lápis era quase uma emancipação no quesito maturidade. Logo despertei a atenção das outras meninas da turma, que num passe de mágica quiseram ser minhas amigas.

Mas a Joice, que era mais inteligente e menos óbvia, tinha uma carta na manga, pronta para usar quando meu QI vacilasse. Ela tinha três chicletes da “Família Dinossauros”, com figurinha transfer e tudo. Como vocês já leram vários relatos sobre a postura de Vó Maria, sabem bem que ela não me deixava fazer n coisas, e comer chiclete estava no meio disso tudo. Quando Joice veio com a proposta açucarada, meus olhos brilharam com a possibilidade de experimentar o proibido. Mas isso não seria de graça. Em troca, ela queria as duas lapiseiras reluzentes que ganhei da minha irmã. Não pensei duas vezes e fiz a troca, como se aquilo fosse a melhor escolha. Só Deus sabe a bronca que levei quando cheguei em casa e minha irmã soube da besteira que fiz, com direito à visita de irmã e madrinha à diretoria e tudo. Resultado: devolvi dois dos chicletes, tive minhas lapiseiras de volta e fiquei com cara de tacho, como sempre.

Essa não foi a única vez em que fui passada para trás. Isso aconteceu tanto que seria capaz de escrever um livro de seiscentas páginas só de casos similares. Não sei se é por causa do planeta que rege meu signo, ou porque nasci em 1985 e sou boi no horóscopo chinês. O que eu sei que alguma coisa em mim (talvez a estatura, a cara de criança ou a falta de sangue nas veias) desperta nos outros a vontade de zoar o meu plantão. Foi assim por vinte e oito anos e já era para eu estar acostumada com isso.

Mas eu não consigo me adaptar, ainda mais agora que eu mais me calo do que falo, mais penso do que berro, mais implodo minhas frustrações do que saio por aí estapeando os outros. Estou na minha. Estou zen. No stress. Busco outras coisas com o olhar, sinto diferente com o coração. Eu me puni tanto ao longo da vida por ser assim, tão fácil de pisotear e tão incapaz de reagir, que agora abracei de vez a minha fragilidade e incompetência. Não quero mais entoar um slogan pouco atraente de uma propaganda menos sedutora ainda. Tá, eu não sou, paciência. Se um dia serei, bom. Se não for, tudo bem, arrumo uma cabaninha por aí, enterro meus pés na areia, namoro o mar e recomeço. Não é de todo mal apertar o reset de vez em quando.

Mas, por favor, não subestime minha essência. Posso parecer estúpida, despreparada, deprimente e até sentimental demais, mas não pense que eu sou um saco vazio. A coisa mais triste que existe é quando uma pessoa simplesmente é descartada por não ser mais útil. Tenho meus momentos, estou para baixo muitas vezes, cansada até o último fio de cabelo, mas é por carregar coisas pesadas demais durante um tempo. Tem horas que o corpo não aguenta, a alma chora e precisamos daquela parada estratégica para respirar, analisar a bagagem e ver se não estamos carregando coisas demais.

Fico triste quando vejo que só somos interessantes quando estamos com um sorriso escancarado, badalando por aí, aparecendo em mil festas e duzentas fotos. Quando temos tudo, somos tudo e mais um pouco. Quando podemos oferecer uma fachada que agrade e não uma verdade que se suporta. Ninguém é cem por cento belo, bem-sucedido, feliz, disponível, agradável e exultante. Tem momentos que ser um reles mortal faz bem para saúde.

Debaixo de uma camada visível, existe um ser humano trancado, que sente demais, pensa demais, ama demais e não é reconhecido por isso. Que pede ajuda com palavras, que se emociona com o amanhecer e adora brincar na chuva. Dentro dessa porta fechada, há sentimentalismo barato, drama mexicano, conselho que não se põe em prática, uma mulher que não sabe o que fazer com provas de fogo e amores rompidos, que vire e mexe não está em seus melhores dias, mas que entende a sua travessia. Uma pessoa que acredita nas voltas que o mundo dá, na providência divina e que pode não ter utilidade, mas que tem uma essência fincada no bem e no amanhã, que sempre será melhor.

O problema das pessoas está em achar utilidade em tudo e não compreender que estamos em constante construção.

Alguns evoluem.

Outros, às vezes.

Mas quem trata o próximo como coisa, esses não evoluem nunca.

 

Aryane Silva

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2 comentários sobre “Como tratar alguém que te vê como utilidade, sendo que o mais bonito em você é a sua essência?

  1. Aryane, além de você dar um passeio na escrita, dá também uma lição de vida para a gente. Quem ainda não foi contemplado com a esperteza e o interesse de “amigos” e muitas vezes foi usada como bode expiatório?
    Mas a gente vai aprendendo e até chega a conclusões brilhantes como essa:

    “O problema das pessoas está em achar utilidade em tudo e não compreender que estamos em constante construção.”

    Muito bacana isso, amiga querida.
    Um beijo,
    Manoel

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