Certos milagres

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Há uns meses, um amigo meu de infância, sabendo de alguns problemas emocionais que eu estava passando, me contou uma história, por alto, de uma de suas amigas que ficou um ano internada no hospital. Os médicos não conseguiam diagnosticar o que ela tinha. Um ano (imagino eu) de agulhadas, exames e mais exames e uma infinidade de remédios e visitas. Um aniversário sem festa e comemoração, natal, ano novo, sem rotina de trabalho, sem aquele cansaço que nos acomete no final de dia, onde nem queremos comer, apenas nos jogamos na cama. Ali, ela não tinha rotina, não precisava acordar cedo e vivia acompanhada da insegurança em saber o que seria dela dali em diante. Era tudo incerto.

Quando esse amigo me contou pelo telefone, sem essa quantidade de detalhes que acabei de citar, eu chorei. Mas um choro emocionado e besta ao mesmo tempo. Perguntei a mim: – Como eu ainda posso me permitir ficar desse jeito, quando tem tantas outras pessoas que passam por coisas piores e ainda sorriem para a vida? Encerrei a ligação me sentindo a criatura mais estúpida que existe. E decidi que dali para frente seria diferente. E foi.

Ontem conversei com essa amiga dele, que já era uma pessoa pela qual eu tinha apreço, mesmo não tendo intimidade. Eu sou do balaio dos “se é amigo do meu amigo, é meu também”. Ao conversar com ela, tive medo. Não que ela seja alguém que intimide, mas sabe aquela sensação de se estar diante de alguém importante e você, se sentir tão inadequado? Pois é, foi assim que me senti. E não tenho vergonha nenhuma de reconhecer isso, sei que ela é de carne e osso como eu, uma pessoa qualquer.

Não, ela não é uma pessoa qualquer. Ela é um milagre, desses que a gente escuta por aí, mas custa a acreditar. Talvez isso que tenha despertado em mim esse sentimento de pequenez, ao falar com alguém que passou por coisas infinitamente piores e não perdeu a fé, nem o brilho no olhar. Gente que acorda e agradece por mais um dia, enquanto eu, que sou rabugenta por natureza (e amorosa para poucos), peço para fecharem a cortina, pois o sol me incomoda.

Eu sempre fui fascinada por histórias de superação. Sempre escuto, choro, tiro algo dali e mudo. Posso mudar apenas um copo de lugar, mas mudo. Posso apenas trocar o tempero que usava antes, mas mudo. Posso escolher outro caminho até o ponto de ônibus, mas mudo. Devagar, lentamente, faço pequenos ajustes, sem grandes estardalhaços, mas é assim que funciona para mim. E acredito que para essas pessoas que superaram suas intempéries também, pois tiveram sabedoria e paciência para transpor barreiras, duas qualidades que nos faltam hoje em dia.

Eu não quero mais olhar para a vida com olhos de ressaca, de quem acha que nunca pode nada por medo. Também sei que não preciso correr como uma louca para ser feliz, arreganhar os dentes e mostrar pro mundo que eu “estou muito bem, obrigada”. Quero sim, aproveitar a fluidez de um viver que me permita colher lições valiosas e duradouras. Para mim, como foi, é e sempre será, o que importa são coisas externas que dão poder ao meu coração, limites superados, desafios rompidos. Eu que tenho que buscar o que se encaixa para os meus dias de maneira correta, mas só conseguirei isso se eu valorizar a existência e demorar o olhar nas coisas que realmente valham. E eu acho que é assim que essas pessoas que já passaram perrengues, pensam. Elas são um exemplo para mim.

A tal menina do hospital? Não está mais no hospital tem tempo. Está bem, com um belo sorriso no rosto, amando cada minutinho que passa e fazendo o melhor que pode para si e para os outros. Eu sinto e vejo isso.

Por isso eu sempre digo e vou repetir até seus ouvidos cansarem: use a sua força interior a seu favor e a favor do amor, sempre!

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2 comentários sobre “Certos milagres

  1. Aryane, eu tinha que ter lido isso hoje mesmo. Foi a puxada de orelha mais gostosa que eu poderia ter levado. Eu já estava olhando a vida com olhos de ressaca. A normalidade das coisas já estava me incomodando. Estava naquela de reclamar do frio, do calor, do prefeito que não mandou tirar as “graminhas ” das calçadas,…, e outras coisas “gravíssimas” como essas anteriores, kkk!
    Eu valorizo muito tudo isso que você falou porque (se você se lembra de eu ter dito) eu tive o mesmo problema de saúde que você e consegui me recuperar nadando contra a correnteza e foi muito bom porque hoje ajudo quem está nesse barco e consigo bons resultados. Depois daquilo passei a entender mais o que vem a ser o amor. Parabéns pela postagem!
    Um beijo com carinho (de verdade).
    Manoel

    PS: Eu também falo e uso sempre isso:
    Eu sou do balaio dos “se é amigo do meu amigo, é meu também”.

  2. Ah Manô… É uma travessia muito difícil, viu? A gente tem que ter muita força e muita determinação para passar por tudo de cabeça erguida. Mas tudo isso me tornou muito mais humana e esclarecida. E o que eu puder fazer para que os outros entendam que o amor é libertador, eu farei. Beijo querido!

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