Agradeça por isso

maquina-de-escrever

 

Começo esse texto com uma frase e peço para que não esqueçam, pois lá no final vocês entenderão: dê graças a Deus por isso!

Hoje eu não quero escrever sobre flores e corações. Tão pouco sobre aquele moreno irresistível, com sua camisa de flanela quadriculada que arranca suspiros nos meus devaneios, nem do dia cinzento que se revela no céu do Rio de Janeiro e que me dá alívio ao sair na rua, muito menos daquela alegria pipocante de sexta-feira. 

Não. Será diferente. Quero escrever sobre direitos. Deveres não, que esses a gente está cansado de saber (pagar conta no prazo certo, respeitar o vizinho, não maltratar os animais, não dirigir em alta velocidade, etc.). E também não falo sobre aqueles que estamos carecas de conhecer, que estão na constituição e todos aqueles “mimimis” que ouvimos em anos eleitorais. Discurso sobre algo maior e mais importante: o direito de expressão.

Tenho amigos advogados, engenheiros, professores, atendentes de telemarketing, secretárias, metalúrgicos. Tenho irmãs professoras, irmão balconista (se não me engano). Todos eles passam por alguma situação desagradável em seu cotidiano e, se tiverem sorte, chegam em casa e desabafam com a esposa, enquanto ela faz o jantar, com o namorado, enquanto ele assiste o Jornal Nacional, ao amigo que esbarra na padaria, para a avó que está cambaleando de sono, mas quer saber se o neto chegou bem. Alguém sempre tem alguém para contar algo. Alguém em que possa depositar a alma no colo, para ser acarinhada até dissipar o dia ruim.

Eu sou escritora. Já fui secretária, atendente, recepcionista, professora, babá, manicure, auxiliar de Departamento Pessoal, mas hoje sou apenas escritora. Adivinhem para quem eu conto minhas tristezas? Para o papel, para a tela de 17 polegadas que está aqui na minha frente. Neles, eu coloco o pouco de mim que está angustiado e as palavras me conhecem bem, fluindo tão adequadamente que, quando eu vejo, saiu alguma coisa que preste. 

O escritor é um ser solitário e ao mesmo tempo bem acompanhado. É como estar sozinho no quarto, e ao rabiscar a inicial de uma palavra, as pessoas entrassem fazendo festa. É um momento único. Só quem é sabe o que sente. Tendo palavras, nunca estamos sós. Isso não quer dizer que amigos não nos visitem, que a cama não seja dividida com alguém, que um professor da faculdade não pare para bater aquele papo legal de final de aula. A diferença é que somos sensatos, recatados e muitas vezes reclusos. Há os que gostam de aplauso, festa, estardalhaço. Eu sou do grupo dos centrados, de poucas palavras, mas de muito sentimento. Sempre me dei bem e é assim que funciona para minha vida.

Agora, se eu quiser chegar aqui, xingar, vomitar meus desafetos, me indignar com a vida que levo, usar o pessimismo como pano de fundo, desabafar meus descontentamentos, eu tenho total direito também, assim como todos aqueles amigos meus já citados que não usam a palavra escrita, mas berram a falada. Minha forma de gritar é escrever, que ao contrário do que Pessoa dizia, para mim, escrever é expulsar. Colocar para fora tudo o que não agrada, o que faz chorar miudinho ali, sem que ninguém perceba, mandar meia dúzia de gente pra lugares feios, sem que para isso eu precise usar palavras baixas: entrelinhas existem para isso. 

Eu tenho direito de ser humana, que dá topada na quina da cama e pragueja, que acorda e fica de pijama até o final do dia, que não penteia o cabelo, que não atende telefonema de banco para não lembrar que ainda não paguei o cartão de crédito esse mês, que lamenta ter que vender o violão que ainda não aprendeu a tocar para pagar contas, que faz um malabarismo daqui, vira a cara lá, mas que vive, na intensidade de suas emoções, come e caga como qualquer pessoa.

Galera iludida, a vida não é mar de rosas. Nunca será e sabe por quê? Porque estamos aqui para aprender, pro nosso espírito evoluir. Já viu alguém evoluir tendo tudo na mão, sem um arranhãozinho sequer? Não, né? Tem que batalhar, tropeçar, comer muito arroz com feijão para aprender. 

Minha vida é uma biografia não autorizada e disponível. Um livro aberto que todo mundo tem o direito de conhecer, Aliás, acho super importante essa coisa de saber em qual território se adentra. Esse território aqui é do bem, mas ama, sangra e manda ir à merda como qualquer outro. Então, se sou a favor da verdade, não vou esconder meus sentimentos, jamais. Se sou escritora, estou aqui para entreter (o lado mágico da coisa), mas também para informar, e informação requer verdade.

Eu sou uma verdade ambulante.

E dê graças a Deus por isso.

Aryane Silva

 

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3 comentários sobre “Agradeça por isso

  1. Aryane, você disse tudo! É uma verdade ambulante mesmo. Como a escritora é solitária eu estou invadindo aqui para conversar e tomo a liberdade de perguntar onde foi que essa escritora aprendeu tudo isso de vida em tão pouco tempo. Eu fico meio que boquiaberto ao ler esses seus artigos em que eu sinto as suas idéias e concordo que são verdadeiras. Isso é ótimo e dá a impressão que a gente se conhece e é muito amigo faz séculos. Eu já montei a “minha” Aryane na cabeça e escrevo (converso) para ela de acordo com o modo que a imagino. Muitas vezes parece que estou brincando, mas é meu modo de ser mesmo. Aprendi que é muito mais doce correr atrás da alegria e tentar transmití-la. Até nas infelicidades existe um modo de tirar uma pontinha de alegria. Tirada essa pontinha a gente trata bem dela, dá um bom acabamento, coloca uma dose de carinho e amor e ela se transforma numa grande alegria. Aí a gente sai distribuindo. É claro que quem recebe a nossa alegria é sempre muito especial porque ela é quem motiva essa distribuição.
    Minha amiga escritora, você é uma alegria para os meus olhos leitores.
    Um beijo,
    Manô

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