Só um dia

A campainha toca. Ninguém atende a porta. Clarice confere a hora no celular. Seis da manhã. Certamente ele ainda não acordou, pensa a jovem. Ela decide sentar no meio-fio e aguardar alguém abrir a porta. Uma hora depois, ela ouve alguém girar a maçaneta. Levanta apressadamente, limpando a poeira da roupa e ajeitando o cabelo.

Gustavo abre a porta e leva um susto quando vê Clarice parada ali, olhando para ele.

– Deus do céu! Eu não acredito! Arroz?

A jovem sorri, ao lembrar do apelido posto por ele durante as conversas pela internet.

– Sou eu, Gu! Nossa! Você está um hom…– disse ela, sem poder completar a frase. Gustavo larga a pasta de couro no chão e a abraça forte.

– Nossa! Eu morri mil vezes sem você aqui! – diz o rapaz, com a boca abafada nos cabelos dela.

Dentro daquele abraço, Clarice sorria, sabendo que aquele era o melhor e mais carregado de saudade.

– Desculpe por eu vir tão cedo. Fui escalada para um trabalho aqui na sua cidade, lembrei que te devo uma visita há anos. E como eu tenho que estar na empresa às dez, pensei em passar aqui para vê-lo, pois não sei se terei tempo depois da reunião.

Gustavo não esboçou uma reação sequer, mas não tirava os olhos dela, o que a deixou absolutamente sem jeito.

– Bem, então… você está diferente! Mais alto, com cara de empresário! – ela ri da piada boba, esperando que ele o fizesse também.

Mas ele fica imóvel. E não tira os olhos dela.

– Vamos ficar aqui fora o resto do dia? Cadê a sua educação de me convidar para entrar? – Clarice riu de novo, mas sem sucesso. Gustavo estava perplexo demais para rir junto.

O celular dele tocou em seu bolso. Ele acordou de seu devaneio e pediu um minuto à jovem, para atendê-lo.

– Oi. Não, ainda não saí. Sei que estou atrasado, calma! Vou precisar chegar mais tarde hoje, estou com um problema para resolver. Veja o que você pode fazer sem mim. Depois eu explico. Obrigado. – ele desliga o telefone e o coloca no bolso novamente.

– Desculpe, Arroz. Vamos, entre.

Clarice entrou na casa. Cheirava a incenso de sândalo. Tinha mobílias bem conservadas e o sofá era o mesmo de anos atrás. Ela se sentou, tirando a jaqueta de couro, colocando-a no braço da poltrona.

– Não mudou muito desde a última vez que vim aqui. -– disse ela, passando os olhos nos detalhes da sala.

– É. Tem coisas que não mudam, mesmo depois de tanto tempo. – Gustavo disse, sem tirar os olhos dela.

Clarice sentiu-se desconfortável por estar ali. Estava acostumada com um Gustavo mais descontraído, bem-humorado e leve. Assustou-se ao ver que em sua frente tinha um homem distante, paralisado e quase monossilábico.

– Desculpe, você quer alguma coisa? -– pergunta ele.

– Você não vai trabalhar hoje? – ela retrucou.

– Você prefere suco ou água? Ah não, você nem deve ter tomado café da manhã, Deus do céu! – ele corre para cozinha e começa a abrir os armários. – Vamos ver o que tenho aqui. Pão, queijo, presunto, posso fazer um misto quente, tem um bolo que fiz ontem também e…

Clarice invade a cozinha e o faz parar.

– Ei, calma, Gu! Eu não vim comer nada. Vim pra te ver. Relaxa, vamos sentar e conversar. Venha.

 

O que será que Clarice quer conversar com Gustavo? Por que será que ela resolveu aparecer, depois de tantos anos?

 

Não perca o resto do conto no livro (Re)encontros!

 

Aryane Silva

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