A história de “Priscila”

Run_away__I__ll_attack_by_LolaCraven

Hoje eu quero contar a história de alguém que eu gosto muito e conheço bem. Vou proteger seu nome, por enquanto a chamarei de Priscila, que não é a “rainha do deserto”, mas sempre foi dona do seu nariz e destino.

Priscila era uma jovem de cabeça feita, coração sobressaltado e sonhos que só cabiam na sua imaginação, já que ela não movia um dedo para realiza-los. Caprichosa que só, achava que o mundo tinha a obrigação de servi-la. Aos dezoito anos, depois de terminar um namoro de quatro, conheceu um novo amor, embalado por Jota Quest, em um show da banda na praia de Copacabana. A “camisa de pipoca” (como ele a chamava) a encantou no primeiro momento. E quem a vestia também.

Em um segundo momento, foram as mensagens recebidas de madrugada, os presentes sem data certa e as visitas inesperadas que a conquistaram. Ela tinha respeito por sua trajetória de vida e pelo jeito otimista dele olhar para frente, mesmo quando seus traumas ainda pulsavam dentro. Foi seu melhor amigo e confidente, além de amor de sexta a domingo.

Acharam aquela coisa de namoro boba demais e ele, oito anos mais velho que ela, divorciado e com uma filha de cinco anos que via “de vez em nunca”, chamou Priscila para morar com ele, numa casinha aconchegante (e apertada!) no subúrbio carioca. A moça, posuda que só, arrebitou ainda mais o nariz e aceitou o desafio sem pensar duas vezes, mandando um papo reto pro destino: “nem vem que não tem, a vida é minha e a banda toca do meu jeito”.

Chutou família, largou amizades de anos e foi brincar de casinha. Tinha se formado no Ensino Médio a pouco tempo e já se sentia um mulherão. Parentes conversaram, tentando frear seu impulso imaturo, amigos aconselharam e até o primeiro namorado apareceu na porta da casa de Priscila, montado na magrela, usando o tom de voz pacífico que ela já conhecia, mas nada a fez voltar atrás. Ela queria casar e pronto, “não aguentava ficar longe dele”, ela dizia.

Dois meses depois, lá estava ela: numa casinha de boneca, com cheirinho de incenso, limpinha e milimetricamente arrumada. No início, flores nas datas especiais, coração cheio de saudade quando ele viajava a trabalho e surpresas na porta da faculdade dela quando ele regressava. As colegas de turma morriam de inveja e o porteiro da universidade já o conhecia. Nos primeiros meses, viagens, melhorias e trocas de casa, carro e cachorro, cartas e chocolate preferido, planos e poesia.

Mas o que era doce, amargou. Os anos passaram, Priscila passou a viver uma rotina apática, aparentando uns quarenta anos, quando tinha apenas vinte e poucos. Ela não era mais casada com um homem e sim uma personificação de dívidas, mau humor, problemas do trabalho e impaciência, um pacote nada agradável. Ela começou a rever o valor de sua escolha e ele, numa versão Shrek perfeita, jogava pratos de comida no chão quando não agradava seu paladar, não cumprimentava suas amigas, dizia que Priscila estava feia, gorda, acabada e que tinha vergonha de andar ao lado de uma mulher tão esdrúxula.

Até que um dia ela acordou e decidiu que não seria uma marionete manipulada pelas frustrações dele. Arrumou suas coisas, ligou para um amigo (um daqueles que ela desprezou lá no início) e foi embora de casa. Bateu a porta e pôs um fim naquela brincadeira sem graça.

Ela passou aperto, fome, desespero, vontade, mas não se submeteu aos desmandos vazios de um coração masculino e frio. Foi de casa em casa, parou muitas vezes para respirar fundo e recobrar o fôlego, mas não entregou os pontos. Sua vida era mais bonita e sedutora do que as famosas camisas de pipoca dele. Sofreu com dignidade, abraçou suas dores, conheceu novos amores, virou criança e fez arte, quebrando pactos e promessas, mas não desistiu dela.

Se foi um anjo, eu não sei. Se foi a mão de São Bento, Deus, Ogum ou algum Espírito de Luz, não faço ideia. O fato é que venci, fiz a diferença, não atendi a expectativa torpe. Fui mais eu, mais Priscila, mais Beatriz, mais Joana, mais Rafaela, mais qualquer uma e todas elas, que não se deixam abater por um falso amor vestido de homem perfeito.

E mais: ele me dizia que eu NUNCA (ele enfatizava bem essa última palavra) seria reconhecida pelos meus escritos.

Ri alto agora.

 

Aryane Silva

 

IMAGEM: Lola Craven

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3 comentários sobre “A história de “Priscila”

  1. Eu adoro ler tudo que você escreve e acho você uma escritora e tanto. Sem fazer média, é muito bom ler você.
    Outro beijo,
    Manô

    PS: Completei meus escritos aqui porque mandei a primeira mensagem via celular “simplezinho”. Ele não aguente escrever muito, kkk!

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