Ei, por que você está assim comigo?

Thinking_by_darth_akao

 

Lembro das festas juninas com muito carinho. Não sei porque decidi recordar disso agora, às duas e vinte da manhã, onde todos já foram dormir e só o que ecoa pela casa são os toques nada suaves que meus dedos fazem no teclado nesse momento. Eu estava disposta a dormir, mas desisti. Tudo por causa de um sentimento cheio de vazio.

Pra começar, antes que o sono me leve.

Não é novidade para ninguém que eu sou uma apaixonada por outonos e invernos. E junto com essas duas estações, festas juninas. Eu adoro a decoração, fogueira, quadrilha e todas aquelas obrigações gostosas de usar marias-chiquinhas e vestidos bufantes para interpretar um personagem interiorano. As músicas, o milho assado, dança, fotos e alegria me trazem à tona lembranças quase perfeitas.

Continuando, antes que a chama apague.

As festas de escola eram as minhas preferidas. Embora eu sempre fosse a última a ser escolhida para formação de par para as apresentações, eu gostava mesmo assim. A hora dos ensaios da coreografia, que antecediam o recreio era o momento mais especial. Eu ensaiava, já pensando em como o dia da festa seria divertido, mesmo que eu fosse obrigada a usar a mesma “caipira” todo santo ano, até ficar curta e apertada a ponto de não caber mais.

Peço que releve a minha pressa.

Quando me tornei adolescente, meu interesse nas festas tornou-se outro. Eu ficava aflita para receber os famosos “correios do amor”. Tinha amiga que recebia dez, outras, contentavam-se com cinco. Eu nunca recebia nenhum, exceto aqueles que os amigos enviavam para pregar uma peça. Mas teve um ano que foi diferente. E eu me lembro.

Sinto, como nunca senti antes.

Recebi um correio, escrito com caneta preta, em um coração de cartolina dobrado ao meio. A caligrafia desafiava o meu entendimento. Perguntei a todos os amigos se era algum tipo de brincadeira, mas eles negaram e eu também desconfiei que dessa vez fosse real. A frase era seca, simples, mas não brotaria das cabeças ocas do meu tempo:

“Sou de uma crueza sem tamanho, mas o amor que sinto é quase insano.”

Perguntei a mim quem na minha idade, em mil novecentos e antigamente, usaria a palavra crueza e insano na mesma frase? Não era uma piada, eu sei bem disso. Mas soou para mim como se fosse. Naquele dia, perdi a graça pela festa em si, me distanciei do grupo, procurei por olhares e atitudes que entregassem alguém naquele pátio, mas não. A pessoa que me enviou era muito esperta.

Se esconde como criança, mas quer ser encontrado.

Cinco anos depois, numa dessas reuniões pós-conclusão-de-colégio, fomos a uma pizzaria, trocar novidades sobre a vida de quase-adulta e tudo o que esse tempo nos trouxe. Eu já tinha quase vinte. A maioria ali, também. Até que o Adriano, um dos colegas antigos de turma, perguntou sobre o que eu tinha feito de interessante nos últimos anos. Eu falei da faculdade, do emprego de meio-período que eu detestava e como eu sonhava em voltar a escrever. Ele me disse que um sonho daquele “era quase um ode à crueza, já que num mundo tão trocado e insano, quem tem o topete de falar de coisas bonitas, ganha o jogo”.

Eu descobri que não sei lidar com o quase, então deixei para lá.

Mas o tempo me trouxe de volta, dois anos depois. Conhecemos outras versões de nós mesmos. Entre o sofá da sala com filme e pipoca e os lençóis com horas de sono perdidas (ou seriam conquistadas?) não demorou muito. Conhecemos a vida de outra forma, passei a me ver no insano e ele morou na minha crueza por meses. Foi bom. Foi divertido e patético. Começou como uma brincadeira de colégio.

Acabou.

Eu sou ótima para destruir e reconstruir ilusões.

Texto sem pé nem cabeça, né?

Não, querido. É a resposta que você pediu agora há pouco, de madrugada.

Descubra nas entrelinhas.

 

Aryane Silva

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6 comentários sobre “Ei, por que você está assim comigo?

  1. Aryane, não é sem “pé nem cabeça” não. Dá para entender muito bem (apesar de eu ter lido por 3 vezes porque gostei muito). Com certeza o resumo de tudo é que você não sabe conviver com o quase e isso é muito importante porque o quase é “nada”.
    Um beijo,
    Manoel

  2. Adorei, Aryane! Primeira vez no blog e pretendo voltar muitas vezes. Suas palavras, não sei, mas eu gostei bastante! ahaha Sério, tô sorrindo não sei porquê. E como os outros acima, eu não achei ”sem pé nem cabeça” não. Beijos, escrevoporvicio.blogspot.com

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