Semi-nipônica

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Quando eu era criança, ficava bem irritada quando alguém ria dos meus olhos puxados. Sentia-me um ET paraguaio e genérico. Não havia uma pessoa que não percebesse logo de primeira e não soltasse aquela onomatopeia de encanto “oh, que gracinha”! Não, eu nunca achei bonito. Parecia que eu andava constantemente pelada, já que todos olhavam para mim.

Minha mãe era negra, dos olhos amendoados, grandes e expressivos. Minha irmã Aline seguiu a linha de montagem da natureza e saiu uma cópia quase exata. Procurei em alguns álbuns antigos de família e não encontrei nada parecido. O que me restou foi crer no repulsivo: eu devia ter puxado essa característica física do meu pai. Muitos anos depois, quando o conheci, confirmei minha suspeita. Vi meus olhos, não somente nele, mas em duas irmãs também, que pela semelhança me ajudam a economizar explicações de parentesco. Quem nos vê, sabe que temos o mesmo sangue correndo nas veias.

Mas o que eu queria mesmo era ter olhos claros. Tinha uma amiga de infância que ostentava madeixas loiras e pupilas absurdamente azuis. Invejava em segredo (adolescentes tem dessas coisas, desculpe Amanda). Eu queria que algo me destacasse no rosto ao ponto de alguém dizer “uau, que lindo”, mas, ao invés disso, as pessoas olhavam e riam. Parecia que eu tinha uma anomalia no meio da face.

Apelidos não faltavam. Era “japonesa” para cá, “made in China” para lá. Até de “ling ling” e “olho junto” me chamaram. Eu torcia o nariz, mostrando reprovação. Eles viam e riam. Sabiam que estavam conseguindo o que queriam. E eu sempre deixava para lá. Aos dezesseis você tem tantos problemas amorosos e hormonais, que apelidos idiotas são o de menos. É lucro.

Até que eu me apaixonei pela pessoa certa para desmistificar essa minha insatisfação. Estava em um barzinho, no subúrbio carioca, com duas amigas. Um rapaz alto saiu de uma portinha, subiu em um palco improvisado e pegou seu violão, afinando as cordas. Eu fiquei completamente hipnotizada por ele. As meninas que me acompanhavam riam, pois achavam que era fogo de palha, como em todas as vezes. Que nada! Quando ele começou a dedilhar o violão e cantar “Você é linda” de Caetano, olhando para mim, sorrindo e enfatizando o verso “fonte de mel, nos olhos de gueixa”, me derreti. Até pensei em ficar brava, mas foi tão suave e poético, que perdi as forças para revidar.

Ele terminou a música, veio perto de mim, entregou-me um guardanapo com seu telefone e uma frase: “são os olhos semi-nipônicos mais lindos que já vi”. Eu me derreti de novo e mais algumas vezes, onde o encantamento dele pelos meus olhos começava no jantar descontraído e terminava no beijo de despedida do café da manhã.

Hoje, quem nota isso e elogia, ganha meu coração. Fiz as pazes com o espelho e os olhos quase orientais.

Através deles eu posso ver as coisas boas da vida, admirar arte, dar aquela paquerada e ler alguém que fala pouco. Já que um olhar vale mais que mil palavras, saio ganhando. Não existe linguagem mais clara e certa do que uma troca de olhares.

Meus olhos são como qualquer outro. A diferença é que o DNA foi generoso e o vestiu com traje de gala.

 

Aryane Silva

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