Retrospectiva

way_alone_by_St_JR

Eu sabia. Alguma coisa estava errada. Um sexto sentido até tentou me avisar, mas eu andava tão distraída que não entendi. Minha consciência que me perdoe, mas ando mais preocupada com as portas que esqueço abertas e as panelas que queimam no fogo.

Quando saí do transe e dei por mim, estava ouvindo “My sacrifice”, do Creed, inúmeras vezes no dia. Logo eu, que sempre enchi a boca para dizer que detestava a banda por ser um cover descarado do Pearl Jam, caí na minha própria armadilha. Foi minha trilha sonora no retorno da faculdade para casa e nas noites chuvosas e melancólicas.

Passei a viver em outra dimensão e só me dei conta quando estava rindo das piadas que ele contava e das imitações malfeitas de celebridades. Dividia minha rotina com um Bill Cosby genérico e gostava disso. Se fosse anos antes, acharia tedioso e quase insuportável. Risos escandalosos nunca fizeram parte da minha configuração. Mas ele trouxe tanta alegria pros meus dias, que deixei a maré me levar. Aprendi a nadar na sonoridade das nossas gargalhadas.

Com o tempo, tudo mudou para mim. Bons livros deram lugar ao rock de Metallica e companhia. Aquela briguinha besta na fila de mercado deixou de ter importância. Medos banais e bobos, foram  até certo ponto, ignorados. Minha meta passou a ser correr riscos. E ele era um, disfarçado de amor, que fazia caretas nas fotos, que era seguro o suficiente para não ter ciúmes, e até gostava que eu ganhasse uma cantada na rua. Ria e achava o máximo ter uma namorada cobiçada.

Gostava dele, dos seus pés na mesa, postura torta e cabelo desgrenhado, jeans surrado e piscadela maliciosa e cúmplice. Ele, que me levava para ver o mar à noite e ficava com o olhar perdido, como se procurasse as palavras certas. A pausa dramática valia a pena, pois sempre saíam frases em forma de poesia daquela boca. E eu ria, custava a acreditar que aquele cara tão relax com a vida, pudesse ser tão profundo no que dizia.

Eu queria me perder ali. E de fato me perdi. Dele e de mim. Esqueci o caminho de volta e fiquei cada vez mais distante. Ele, que detestava coisas efêmeras e pessoas em cima do muro, respeitou meu silêncio e parou, não caminhou comigo. Eu estava afobada, querendo correr. Ele, sabia que coisas levavam tempo para serem construídas em bases sólidas. Apertei o passo. Ele parou o dele. E ficou para trás. Eu cheguei na frente e acordei do sonho. A realidade bateu na minha porta mais uma vez.

Hoje, ele tem uma nova vida, uma nova casa e um novo amor.

E eu, um arrependimento a ser engolido, mastigado, triturado e digerido.

Aryane Silva

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2 comentários sobre “Retrospectiva

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