Rhum!

feebrile

Quando eu era pequena, morava em uma casa grande, de dois andares, com avós, tios e primos. Tínhamos um bar na estante, com algumas peças de cristal, vidro e algumas garrafas de licores e rum. Meu avô, em seu ritual diário, chegava do trabalho, tirava os sapatos e se servia de uma dose (isso foi o que me contaram).

Certa vez, eu e uma prima bagunceira cismamos em abrir o móvel para ver o que tinha dentro, já que não tínhamos altura o suficiente para alcançar e bisbilhotar. Puxamos uma cadeira e ela subiu – mais destemida que eu – e pegou um copo de cristal para me mostrar. Isso não durou vinte segundos. Ela se desequilibrou, o copo caiu de sua mão e se espatifou no chão.

Um dos meus tios ouviu o barulho e correu para a sala, na intenção de saber o que acontecia. Minha prima, astuta que só, já tinha se levantado, ajeitado a cadeira e saído. Eu fiquei com tanto medo de ser pega (embora eu só tenha incitado e não cometido o crime), que não reagi. Simplesmente parei. Minhas pernas não respondiam. Meu tio chegou, viu os cacos de um copo de cristal azulado que tinha alguns anos de existência aos meus pés e, somando o que via, mais a cara de apavorada que fiquei, sentenciou que eu tinha feito aquilo.

Eu tentei me explicar, dizer que tinha sido a Ludmilla e até estava disposta a confessar a minha participação intelectual na coisa, mas não adiantou. Quem levou bronca da família inteira e ficou de castigo fui eu. A culpa foi jogada em meus ombros e eu nada pude fazer.

Essa é uma história real. Bobinha, eu sei. Dessas que a gente conta para dar lição de moral em crianças. Mas não é o caso. Hoje eu quero escrever sobre o que nós, adultos, sentimos voluntariamente e com razão, ou carregamos sem merecer: a culpa. Esse acontecimento que acabei de descrever foi a primeira vez que eu fui culpada por algo que não fiz. Se eu fosse escrever aqui as trilhões de vezes que levei a fama sem deitar na cama, escreveria um livro. E seria virgem, de fato.

Aprenda e entenda: você pode fazer o certo, evitar o barraco, relevar milhões de insultos, dar a outra face para te estapearem, mas se alguém precisar tirar “o dele da reta” para colocar o seu, ele vai fazer. E não interessa se ele souber todos os salmos da bíblia e for à missa aos domingos; se ele precisar usar você, algo que você disse ou até mesmo a sua respiração para justificar uma escorregada moral dele, ele vai usar e não há santo que o faça refletir.

Quem não se banca tem a mania de culpar o outro para desviar a atenção da maldade que ele sente, mas não revela, da falta de caráter que ele cultua, mas que esconde. A pessoa que não sabe assumir erros, lida com eles como se fossem batatas-quentes, jogando pro outro a carapuça que ele sabe que cabe, mas que não quer vestir.

Ninguém é tão corajoso a ponto de falar aos quatro ventos e para quem quiser ouvir: – Alô, people! Eu sou falso, falo mal dos outros por trás e mando beijo pela frente, detesto fulano, mas finjo que gosto porque estou preso às circunstâncias, sou avarento, mesquinho, desonesto, finjo que estou dormindo quando uso o acento preferencial no ônibus e mando todo mundo ir à merda em pensamento! Se você que me lê souber de alguém que assume suas cagadas, me avise; mandarei flores.

É mais fácil culpar o babaca que não reage porque aprendeu que o conflito não leva à nada, do que o outro que manipula emocionalmente os outros, se finge de fraco e pobre coitado, mas gasta seu tempo maquinando e confabulando.

Por que eu estou escrevendo isso? Porque, como Quintana escreveu: “quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação”. E como sou econômica, escrevo. Assim evito gastar a minha didática emocional com mentes tacanhas.

Ok, está certo. Toda história tem dois lados, assim como as moedas.

Espero que o que culpa o outro para fazer a social engula uma moeda de um real e engasgue, com suas falsidades e mentiras.

Aryane Silva

IMAGEM: Feebrile

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