Esfregue. Mas esfregue bem, ok?

indifference_II_by_4bsintheEu já caí, querendo desobedecer minha irmã em correr pelo meio da rua e ralei os dois joelhos de uma vez, no asfalto quente, no verão do Rio de Janeiro. Doeu pra cacete. Com sete anos, qualquer arranhãozinho, parece a morte. Bati com os joelhos nas quinas dos móveis, rompi a “casca” dos machucados, e aquilo levou mais de dois meses para ficar bom. Acho que uma cesariana cura em tempo menor.

Quando troquei a primeira corda na capoeira, quis me mostrar, me achando graduada o suficiente para “jogar” com uma menina que já tinha anos de prática no esporte, quando eu tinha meses. Ela notou a minha arrogância, me puxou pelas duas pernas e eu caí de cara no chão e ralei a testa toda. A dor veio seguida da onomatopeia de espanto, vinda das arquibancadas lotadas do ginásio.

A primeira vez que fui a um sítio com piscina, resolvi correr para dar uma daqueles saltos estratosféricos, querendo atrair todos os olhares com a minha bravura. Calculei errado, arranhei as costas na borda da piscina e voltei para casa antes do previsto.

Eu me ralei, e muito. A vida inteira caí e me levantei. Algumas vezes, fiz por conta própria porque sou tonta e acho que sou alguém. Outras, para provar a mim que a minha ousadia que me define. E teve aquelas, que eu fui empurrada e escorreguei por não ter reflexo ou aquilo que chamam de esperteza.

Cair, levantar, ralar, cortar, machucar, quebrar, torcer, fraturar, dar topadas, tropeçar, tudo isso faz parte da vida e é com isso que o clichê de nós, escritores, ganha força e vira lei.

Mas aqui, quem vos escreve, é um ser humano. Alguém que sabe a luta que é viver, que sabe que hoje está lá no céu, mas que amanhã o caldo pode entornar e meu olhar poderá ter apenas um fundo de poço lamacento, úmido e ocre para contemplar. Eu não sei se é nas Escrituras que tem isso, mas “tudo tem seu apogeu e seu declínio”. Tudo. TUDO!

Então, como um ser humano que escreve sobre o amor, vive-o em suas minúcias e renúncias, mas que ainda não aprendeu a malemolência vital, eu aconselho: nunca pense que o que você tem hoje te dá algum tipo de poder sobrenatural para pisar ou humilhar alguém. Porque, não sei se você sabe, mas o mundo gira e tem quatro estações: uma bonita e cheia de flores, uma quente, cheia de belezas, uma triste, cheia de folhas mortas pelo chão e uma fria. Precisamos passar por todas elas e não são coisas que nos ensinam: são os passos que damos entre uma e outra.

Agora, se você é daquele tipinho ralé, mal-intencionado, triste, vazio e carrega uma lista interminável de adjetivos repugnantes que definem o teu lado raso, eu te desejo boa sorte, porque você vai precisar. Nunca vi nenhum exemplo positivo e do bem ir longe, querendo esfregar na cara do outro o que é efêmero.

Aliás, não. Ao invés de desejar sorte, te desejo força. Esfregue. Esfregue muito. Bastante, pra caralho. Até sangrar.

E torça para que o outro sinta uma pontinha de tristeza, porque, na maioria das vezes, ele está cagando pros exibidos, sendo genuinamente feliz com sentimentos e pessoas. Não coisas.

Aryane Silva

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2 comentários sobre “Esfregue. Mas esfregue bem, ok?

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