– Sim, eu preciso continuar.

hurt_by_Rubashka

Eu sempre fui frouxa para machucados. Para dor, em geral. Até se eu arrancasse um “bife” fazendo as unhas era um chororô só. Não sei se isso tem alguma relação com meu signo (Touro), ou se eu vim com esse defeito de fábrica. Todas as vezes que caí quando era pequena, ralei joelhos, perdi as pontas dos dedões ou tive bolhas causadas por sapatos novos, eu sempre chorei. Coisa cinematográfica mesmo; abria o berreiro. Só que me dava mal, porque, na maioria das vezes, ou ouvia um “engole o choro, garota”, ou ninguém vinha me acudir e então aprendi a cuidar dos meus ferimentos sozinha (isso não foi uma metáfora).

Tinha medo de levar pontos, até o dia que precisei extrair um dente. Vi que não era nada tão terrível assim. Ainda tenho problemas em tomar injeções e fico noites em claro quando preciso ir ao laboratório para coletarem uma amostra do meu sangue. Ainda não sou fã das topadas com o mindinho do pé nas pontas dos móveis e da queimadura causada quando o dedo é mais rápido e mergulha na cola quente recém-saída da pistola.

Mas hoje provei uma dor diferente. Coisa meio masoquista para se dizer, até porque não foi gostoso. Eu e meu marido estamos em obra na nossa casa. Eu sou igual à criança pequena, só falta eu ficar dizendo: “- Deixa eu fazer! Deixa eu ajudar?” e saltitar. Na obra da casa anterior, eu ajudei, meio preguiçosa. Dessa vez, decidi que quero colocar a mão na massa mesmo (ou na argamassa, na tinta, enfim). Meu marido me ensinou a tirar os pisos de um cômodo e eu fiz isso em dois dias. Para mim, aquilo foi um grande passo, porque, como vocês sabem, eu tenho Síndrome do Pânico e qualquer coisinha a mais que fazemos é uma grande conquista.

No primeiro dia, a marreta, a talhadeira e eu trabalhamos muito bem. Foi rápido e bem feito. Hoje, a história não foi tão legal assim. Errei a batida da marreta e acertei o dedo, que deu um corte considerável. Mas não deixei o marido ver, senão ele ia me proibir de terminar meu intento. Continuei e, quando estava chegando perto do final, errei de novo a batida e machuquei ainda mais o que estava machucado. Da futura cozinha, ele me olhou e veio até mim, pedindo para eu parar. Eu tive que obedecer, porque eu não tinha mais forças e a dor era muita.

Depois que limpamos tudo, sentamos no chão, em frente à futura casa e ele percebeu, pelo meu olhar, que eu estava sentindo dor. Então, me disse:

– Você não precisa fazer essas coisas, amor. Não precisa se machucar e continuar. Você se machucou duas vezes e, se eu não tivesse visto, se machucaria três, quatro e o pior, calada.

Olhando para frente, pra aquela montanha de pisos quebrados, eu respondi:

– Sim, eu preciso continuar. Posso me machucar um milhão de vezes, mas não posso parar.

Parece diálogo de “A Culpa é das estrelas”, mas não. Foi bem real. E, ao sentar aqui para escrever este texto, pensei na quantidade de vezes que fazemos isso durante o dia. Vivemos engolindo mágoas, ressentimentos, palavras ásperas, humilhações, discórdias, tudo para não parar na vida. Tudo para que, Deus sabe quando, sejamos recompensados por esse ato de amor à vida alheia. Sim, porque se calar e continuar depois de uma pedrada emocional é quase como oferecer uma flor para quem te quer mal.

Somos seres dotados de uma força espiritual gigantesca. Você já parou para pensar nisso? Quanta coisa a gente carrega por anos a fio, dentro da cabeça e do coração, por não querer o confronto, por acreditar na Vida e no acerto de contas que ela sempre faz. Até a pior pessoa consegue esse feito, e chora por pensar que não consegue ser do mal o tempo todo. Todos nós somos do bem. Todos nós merecemos ser amados. Todos nós temos nossa sacola de entulhos por dentro, mas que não descartamos para não pesar no chão do outro.

Que é errado, eu sei. Mas é humano.

E, me abraçando à premissa clichê que “errar é humano”, eu sigo, meio pesada, mas honesta. Com algumas dores, mas, como o avô do meu marido diz, nada dura para sempre.

Nada.

Aryane Silva

IMAGEM: Rubashka (in Deviantart)

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