Duas irmãs, duas mentiras

discovery_by_philomena_famulok-d7et76l

Minha irmã por parte de mãe tinha verdadeira adoração pelo grupo Menudos quando era adolescente. Eu não lembro exatamente como ela se comportava em frente à televisão ao vê-los. Talvez fizesse a dancinha batida da música “Não se reprima”. Não lembro, eu era muito pequena. Essa revelação veio anos depois, entre uma garfada e outra, no meio de um almoço de domingo na casa da minha madrinha (e tia dela). Enquanto lembrávamos de acontecimentos engraçados da infância, essa recordação surgiu na conversa. Rindo, minha madrinha confessou que certa vez minha irmã tinha escrito uma carta para o grupo teen e ela, sabendo disso, escreveu outra como resposta, se passando por Roy e companhia. Minha irmã largou o garfo na hora e arregalou os olhos, como se tivesse descoberto o elo perdido. A cara que ela fez com a confissão foi engraçada. Nunca tinha visto minha irmã ser passada para trás. Ela ficou parada, incrédula. Na testa dela, li nitidamente: MENTIRA?

Não. Agora é verdade.

Eu, há seis anos, recebi a ligação de um rapaz que só sabia chorar do outro lado da linha ao ouvir o meu “alô”. Pensei se tratar de algum ex-namorado ainda apaixonado e arrependido, mas não. Era meu irmão. Meu irmão? Repeti para mim mesmo o parentesco vinte vezes em pensamento durante o trajeto de volta do trabalho para casa, me preparando para acreditar que aquele rapaz branquelo, alto e tatuado fosse meu irmão de verdade. Não pode ser. Como assim? Pensei nisso dentro do ônibus e ao encerrar cada ligação que ele me fazia de dez em dez minutos, tentando lembrar se realmente havia essa possibilidade. Havia, e havia uma família por trás daquele rapaz que quase foi atropelado por um ônibus, enquanto queria atravessar a rua e me abraçar pela primeira vez. Havia duas irmãs a mais, com sobrinhos de brinde para fechar a tampa. Meus vinte e três anos de mentiras, panos quentes e omissão, acabaram ali. Os cinquenta por cento que faltava para eu saber de onde vim foi descoberto. E, mais do que minha irmã, fiz cara de espanto, não acreditei, chorei, fiquei aérea, pensei que estava sonhando.

Alguém me beliscou e eu acordei. Era verdade.

Odeio mentira. Sempre detestei. Desde as pequenas, até as apoteóticas. Depois desse acontecimento pessoal, passei a ser mais neurótica com isso. Quando minha irmã descobriu sobre a carta, ela apenas se sentiu passada para trás, já que ela já era adulta e não choraria as pitangas pro resto da vida. Hoje, se ela chora, é pelas contas atrasadas (se é que ela atrasa), pelo filho resfriado e pelas preocupações cotidianas. No meu caso, quando tiraram o pano que cobria a minha história, me senti traída e roubada. Por mais feliz que eu estivesse em preencher aquela lacuna familiar, eu lembrei dos anos anteriores e pensei que, talvez, t-a-l-v-e-z, minha vida pudesse ser diferente em algum aspecto, embora eu acredite que certas coisas são porque precisam ser.

Quando mente, você desrespeita o outro. Você come com farinha o direito dele à verdade. Ao mentir para alguém, você debocha e subestima a inteligência dele. Pode ter lá sua graça em algum momento, mas depois esmaece e o feitiço volta contra quem mexeu o caldeirão. Não gosto de gente que me poupa a verdade dos fatos, achando que não vou “aguentar o tranco”. Todo mundo tem uma força que desconhece, que só vem à tona quando o único recurso é ela. Eu prefiro ser torturada por uma verdade que não vai me deixar dormir por meses, do que ser embalada pela voz aveludada da mentira. Sim, porque ela é sedutora. Ela organiza a bagunça que a franqueza deixa, mas a esconde debaixo do tapete. Bate o vento e tudo fica à mostra.

Se você mente, prepare-se para o acerto de contas da Vida.

Ela nunca esquece. E não erra.

Aryane Silva

IMAGEM: Philomena Famulok

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s