Quando o tempo só atrapalha

Perfect_Time_of_Day_by_emmajeanjumpingbean

Uma das minhas amigas tem uma filha de dezesseis anos. Durante uma conversa pelo telefone, ela me contou, em tom preocupado, que a menina estava apaixonada por um rapaz do curso de inglês. Até aí, nenhuma novidade, achei normal e bonitinho. O que pesou na conversa foi saber que, em breve, o menino mudará de cidade, sem previsão de retorno.

Enquanto ela me contava a história em detalhes, lembrei de mim. Eu já passei por isso também.

Aos dezoito anos, conheci o Adriano. Eu, recém-saída de um relacionamento que durou quatro anos. Ele, um “mauricinho” descolado, viciado em estudar, mas que não perdia as peladas de quarta no campo de grama sintética do condomínio. Uma praça nos separava. Ele, do bloco seis. Eu, morava no bloco quatro. Sempre o via passar apressado, mas nunca nos falamos, embora eu quisesse. Ele não era um cara bonito, mas tinha carisma e era querido por todos.

A administração do condomínio organizou um luau, tradição de todos os anos. Nos anteriores eu não pude ir, por “n” motivos (e um deles, senão o maior de todos, era meu ex-namorado ciumento). Naquele ano, resolvi ir, ainda mais sabendo que o famoso “Di”, como era chamado por todos, iria. Saímos à noite. Descolei uma carona de última hora. Ele foi o motorista da vez e levou uns amigos. Fizemos o mesmo trajeto até à praia, sendo que eu levei quarenta e cinco minutos e ele, quase duas horas. A desculpa do atraso se deu ao modelo do carro, que era antigo. Eu sorri discretamente, pois sabia que o problema estava entre o acelerador e o volante.

Quando chegou, fingiu não me ver, mas todos os nossos amigos em comum perceberam o clima e deram aquele empurrãozinho bem-vindo. Quando me dei conta, lá estava eu, dentro de um abraço desconhecido. Adriano me contou um pouco sobre sua vida e quando mencionou que foi aprovado em um concurso militar e iria para outra cidade na próxima semana, meu coração foi ao pé. Um letreiro luminoso, escrito “não” piscou dentro de mim, mas um pedido dele me fez voltar atrás:

– Você me espera?

Eu esperei. Nunca esse verbo teve um peso tão grande na minha vida. A cada carta, uma esperança. A cada feriado, uma volta dele, que me deixava insone. Ele pisava em solo carioca, me telefonava e, mesmo que eu estivesse em outro planeta, voltava correndo. Horas de conversas, abraços, beijos e despedidas demoradas. Ele voltava para o quartel, e eu voltava para o meu ritual: releitura de cartas, Save Me Now tocando no repeat e conversas com anjos, santos, duendes, tudo que me desse a certeza que aquilo seria temporário.

Oito meses: esse foi o tempo que eu levei para perceber que a brincadeira era séria. Cartas, voz no ouvido pelo telefone e encontros esporádicos já não eram suficientes. Virou um sentimento picotado, perdeu sua forma. Ele viu isso antes de mim e me avisou a tempo. Passei um ano do cão, quase repeti o Ensino médio. Só chorava, agarrada a fotos e lembranças. Meus amigos sabia que a dor só batia do lado de cá. O lado do Adriano era mais racional e sensato.

No final do ano, ele me entregou o convite de sua formatura, pessoalmente. Disse que ficaria feliz com a minha presença. Tive vontade de rasgar o papel em mil pedacinhos e fazê-lo comer, um por um. Fiz isso? Não. Uma semana depois, lá estava eu dentro de um ônibus, com sua família enorme, indo para Minas Gerais. Fui sem ele, voltei com ele ao meu lado, que tinha no olhar um pedido de desculpas implícito. Se o olhar que devolvi deu alguma esperança, eu não sei, mas fiquei surpresa com uma nova promessa:

– Ary, eu estudei muito para ficar entre os primeiros e assim poder escolher a cidade na qual ficarei. Se eu me saí bem nas provas finais, ficarei no Rio. Se não, irei para Curitiba, por quatro anos.

Fiquei em silêncio, com um bolo esquisito na garganta, fazendo um esforço uterino para não chorar, mas ele percebeu:

– Ei, baixinha, você está bem?

Torci para ser uma pergunta retórica.

E, até hoje, acho que foi.

Aryane Silva

IMAGEM: retirada do site Deviantart

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