Sei

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Eu sei que ele olha minha foto e sorri. Que colocou Vercilo em sua playlist e toca “Ciclo” no repeat, só porque eu disse que, se um dia eu casasse, seria a trilha sonora da minha entrada na igreja. Que ri ao ver o meu bombom preferido na gôndola do supermercado e lembra do meu gritinho toda vez que ele me dava uma caixa com eles. Sei também que ele olha pela janela todas as madrugadas e me imagina insone, sabendo que eu não durmo antes das três da manhã.

Sei que ele pensou em ligar, sem dizer nada, apenas para que eu ouvisse sua respiração do outro lado da linha. E comprou meu livro, mas tem medo de ler e se encontrar nele. Que aprendeu a amar outra pessoa, porque não teve escolha diante do meu “não” definitivo. Socou a porta do quarto porque sabia que tinha feito a maior besteira da vida quando me perdeu e não se perdoa por isso (bobo, deixa disso, perdoei por nós dois).

Também sei que me acompanha, em alma, em uma espécie exótica de amor descabido, em pensamento e sabe que eu vou realizar tudo que eu sonhei lá atrás. Que meu tempo é diferente dos outros (eu não tenho pressa) e, por mais que demore, ele nunca poderá estar nos momentos mais felizes da minha vida, porque o lugar não é mais seu. Sabe, por A+B que eu não corro, mas não chego ao ponto de me recostar no sofá e esperar um amor passar.

Sou especialista em virar páginas.

Do lado de cá, eu sei que demorou. Que eu chorei dias, meses, anos, litros, oceanos, engolindo meu orgulho em doses homeopáticas para não ter perigo de vomitar sentimentalidades pro vento. Por aqui a dor também bateu, por muito tempo. Anos. Multiplique 365 por seis. Sim, quase dois mil e duzentos dias rindo por fora e me rasgando por dentro. Como boa taurina, não sou de metades e ele conhece essa minha regra: ou me jogo e me estrepo, ou nem tento. Ele viu em mim a sua própria existência e isso que deve doer até hoje. Eu sei porque eu já estive do lado de fora. Sei como é ser enxotada de um coração.

Sei do perfume, da letra, do sanduíche preferido, dos grilos que ele tinha na cabeça e isso tudo é a minha recompensa por tê-lo amado tanto. São marcas que eu guardo, lembranças embaladas em papel manteiga para não amarelar, com direito a laço de fita.

E uma saudade infinita.

Aryane Silva

IMAGEM: Vlad M

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