Quase trinta

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Ok, garota. Você já tem quase trinta. Tá longe de ser uma menininha indefesa. Aliás, nunca foi. Sempre foi observadora para ter certeza do próximo passo a ser dado. Nunca negligenciou um sentimento, por mais doentio que fosse. Guardou papéis de carta, de bala e alguns bilhetes. Escreveu cartas (muitas): rasgou a maioria delas por covardia. Virou escritora por valentia. Quis berrar pro mundo tudo o que guardou por anos, na memória e no coração.

Amou pra caramba. Odiou pouco. Na rebeldia velada, esmurrou uma porta e quebrou um dedo. Reatou, desandou em alguns relacionamentos, pediu pra voltar e terminou por telefone. Foi infantil para algumas coisas, cabeça para outras. Não teve paciência para o importante e supervalorizou o óbvio. Chorou clichês, cantou Zezé Di Camargo e Luciano, encantou muita gente, mas ainda acha que passou despercebida. Pobre garota, não sabe nada de si.

Estudou, largou, compôs três canções que ninguém nunca ouviu, tentou ler Alighieri, mas caiu de sono (e de tédio) na página quarenta. Renegou o próprio nome, quis trocar o “y” pelo “i” comum de todos e foi supreendida pela numerologia. Número cinco. Sensatez pura!

Amou seus avessos. Odiou o cabelo e cortou sempre que pôde. Trocou a cor do esmalte, fez coleção de lembranças e se apegou a negativos de fotos que rasgou na hora da raiva. Sentiu saudades. Quis ouvir as mesmas vozes de antes e barganhou um flashback com o tempo perdido. Não ganhou, claro. A regra falou mais alto: passado fica no passado.

Vai, mulher! Acabou a brincadeira de viver. Agora é sério. Com sapatilha ou sem, com bolhas de sabão o não, a vida é sua. Faça dela o que quiser, o que achar melhor, mas faça! Não há mais desculpas para viver romances de livros. Muito menos sonhar paisagens através de cartões-postais. A hora é agora.

Tá certo, você pode sempre recomeçar, eu sei.

Mas faça de cada recomeço, uma história a ser lembrada.

E contada.

Aryane Silva

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