04:30

image

Era um sopro, era um encanto.
Uma vontade de acertar, mesmo eu sendo tão errada  e inadequada para a vida, feita de uma matemática que não batia, no final. Uma especialista em autossabotagem, em mergulhos cegos e vôos rasantes no descaso, na preguiça.

Era um olhar. Era um calar.
Mulher feita de múltiplos silêncios. De olhares demorados, pausados e atenciosos. Carregava o coração nos bolsos, porque na boca o perigo ardia.  Temia frases batidas e canecas vazias. Quando disponível, amava o que era inteiro. O mundo, por mais craquelado que fosse, lhe dava uma coragem absurda. Quando dava, era noite. Quando podia, era dia. Quando queria, era os dois.

Era uma dor. Era um lamento.
Ela nunca conseguiu se tornar imune às mazelas alheias. Via noticiários e chorava. A fome que apertava o outro, fazia seu estômago roncar, mesmo saciada. A tristeza líquida que alguém carregava, desaguava nela, que não tinha tempo de correr para o banheiro e esconder as lágrimas. O cachorrinho abandonado em dia de chuva a fazia chegar em casa e amar ainda mais o seu. Sonhava em ser rica para trocar seus sonhos pelos de desconhecidos e dar-lhes um pouco de dignidade.

Era um sentimento. Era um amor crescendo.

Quando alguém dizia para ela que amor era para idiotas, ela ria. Dentro da sua cabeça, sonhava em ser idiota um dia. Desde cedo aprendeu que amor não existe em decotes, gestos exagerados, salto alto ou perfume fatal, e sim em sutilezas. Nas ausências. No que a palavra não traduz. Na música preferida. No nome bonito, sendo diferente ou não. Nas clavículas mãos e sinais de nascença. No olhar do outro, vindo em sua direção. Nos poemas de Drummond e nas músicas de Marisa Monte. Em tudo.

Era uma pausa. Era uma reflexão.
Ela adorava seu Anjo da Guarda e incenso de canela. Quando estava mal, se afastava, não por maldade e sim para proteger o outro de seus azedumes temporários. Pensava na vida como sua algoz e sua protetora, sempre lhe dando oportunidades de crescimento. O que era complicado, ela descomplicava com alguns minutos de meditação guiada. O que era insuportavelmente triste, ela tentava entender se aquilo era tão importante, a ponto de fazê-la parar de seguir em frente.

Era uma pessoa.

Uma única pessoa.

Sim, ela era única.

Aryane Silva

Anúncios