Uma carta para Roberto Carlos

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Roberto,

Essa será mais uma daquelas cartas que você receberá e não lerá. Eu imagino a quantidade de vovozinhas que te escrevem, declarando o amor delas por você em suas caligrafias trêmulas. Mas eu sou teimosa, sou taurina e ainda por cima, brasileira. Então, já sabe: eu não desisto nunca.

Minha mãe adorava uma música sua, acho que o nome é Outra Vez. Minha irmã mais velha me contou que ela vivia cantarolando o refrão pela casa. Devia ser bonito, mas eu não sei. E sabe por quê? Porque eu a perdi cedo. Mas já passou, e isso faz muuuuito tempo.

Na época de escola eu tive que decorar outra música sua e me apresentar cantando, no dia dos pais. Não lembro o nome, mas sei que tem alguma coisa a ver com fim de semana. Não vou procurar no Google porque estou com preguiça e até meio triste ao lembrar que não tive pai também para ver isso. Coisas da vida, né?

Quero deixar claro aqui que o motivo para eu te procurar, além de você ter feito parte da minha vida, ainda que indiretamente (confesso: amo a sua música Detalhes), não o faço para agradecer, nem nada desse tipo, porque eu teria de fazer isso para muitos cantores e haja dedos para digitar tanto. Nem venho aqui escrever pela minha Vó Maria, por que, sinto te informar, ela gostava de Raça Negra e Agepê. Meu assunto contigo é outro.

Roberto, eu, como você, já quis ter “um milhão de amigos”. Mas, hoje, neste exato momento, queria ter só uns dez. Acho que o destino deu uma zicada nas minhas amizades. Aliás, tudo do lado de cá é fuzacado: irmãos, amigos, coordenação motora, emoções, tudo é uma bagunça. Mas isso é papo pra Andréa, minha terapeuta. Tadinha, ela mal sabe o que a espera (se ela ainda não desistiu de mim, como todo mundo faz).

Então, será que você poderia escrever uma nova música, só para mim? Que tal cortar 999.990 amigos desse teu desejo aí? Quantidade para mim, é o de menos. Já tive tantos, sabe? Tive amigos que não saíam do meu portão em Bento Ribeiro. Outros, passavam a madrugada na praça do famoso condô. Tive uns amigos maneiros, meio ripongas, gente que fingia ter poderes paranormais, que vinham na minha casa só para comer chocolate e os normais, aos poucos, estão indo embora. Será que eu sou muito louca para eles?

Rob, já que eu diminuí consideravelmente a conta, vamos às especificações, pode ser?

Quero amigos que me aceitem como sou. Você não sabe, mas eu sou estranha pra cacete e um pouco instável. Sou grossa porque não tenho paciência para pequenas coisas que as pessoas transformam em grandes tempestades. Eu sou prática com tudo. E isso, aos olhos deles, parece frieza e indiferença. Mas não é. Eu gosto de dar tempo a eles.

Desses dez amigos, também gostaria de uns que não debochassem do meu gosto musical (onde você não entra, desculpe) e não me chamasse de chata por eu gostar de ler. Eu também não curto bebida. E detesto fofoca. E sou apaixonada por cachorros. Eles podem gostar de gatos. Aliás, eles podem gostar do que quiserem, desde que me respeitem e respeitem minhas preferências.

Também, quero amigos que entendam meu tempo. Que me conheçam e saibam que eu não sou de ir atrás, de ligar, de ficar enfurnada na casa deles e que eu sempre fui assim. Isso não é amar menos, ou é? Sei lá, acho meio chato alguém grudado na gente e eu sigo a máxima de “não fazer com o outro aquilo que não gostamos que façam com a gente”.

Roberto, cante e peça gente que seja diferente de mim. Que me faça gargalhar e com quem eu me sinta à vontade de repetir a mesma história vinte vezes, sem ter que desligar o telefone porque meu amigo está com uma panela imaginária no fogo. Coloca aí no teu refrão gente que entenda a delicadeza do meu emocional e não o massacre mais com indiretas no Facebook ou desprezo gratuito. Deixe nas entrelinhas que, do lado de cá, tem um ser humano né? Que não é se distanciando ou passando a responsabilidade do fim de uma amizade para mim que eles estarão resolvendo alguma coisa.

Não Roberto, peraí! Esquece essa porra toda!

Escreva uma música com novos amigos.

E, se puder, mantenha os que são de verdade.

Os outros que vivam suas vidas, morô bicho?

Aryane Silva

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