Quase dez

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Um minuto de coragem vale de alguma coisa? Só se for para aquela velhinha, pulando de bungee jump, em um comercial de telefonia celular. Para mim, sessenta segundos é muito pouco para tomar decisões. Se eu fico quase uma hora, olhando para a prateleira de uma livraria, para escolher um exemplar (considerando ser essa uma decisão fácil), imagine quanto tempo levaria para escolhas mais relevantes e profundas, inerentes à vida? Um século, talvez?

Certa vez, um autor italiano, em uma entrevista, disse que se não soubermos interpretar a vida da forma correta, pegamos o trem para um rumo diferente. Então pensei que, talvez, tudo seja uma questão de placas, direções e setas. Será que faria alguma diferença se, ao invés do trem, dirigíssemos um esportivo quatro por quatro, cantando Unwritten a plenos pulmões?  E, se ao invés do meio de transporte, eu mudasse a roupa? O cabelo? O tipo do óculos? E se eu quisesse interpretar a vida dentro de um balão, ou dentro de uma mesquita? Não sei. Nessas horas um gps e uma intuição funcional me faria um bem danado. Eu não sei para onde seguir.

Estava dormindo até agora. Um atendente de call center me ligou, me acordando  logo em seguida, para me oferecer o mesmo serviço pelo qual recebeu trinta nãos meus como resposta. Fiquei puta da vida e esse é meu estado normal. Sabia que tinha três escolhas: mandar o atendente pro inferno (a mais sedutora), desligar na cara dele ou aguardar na linha ele terminar de ler o texto imenso na tela de seu computador, enumerando as cinquenta vantagens, para, no final, resumir, dizendo que eu teria quer pagar duzentos reais a mais na minha conta de telefone. Escolhi a mais fácil e que me deixasse menos culpada e impaciente: desliguei na cara do sujeito. Mas, supondo que eu tivesse mandado o moço “catar coquinho”, iam me chamar de grossa e que isso é muito pequeno perto das crianças famintas da África e dos casos de pedofilia que vivem embaixo dos tapetes do Vaticano.

Quando eu poderei ser EU de verdade? Isso significa dar um passo atrás e não me jogar ou pegar o trem errado? Quem está certo, afinal: o comercial ou o escritor que precisou de tradutor para me passar uma mensagem, que eu nem sei se foi traduzida à risca?

Viver, como sou, me dói. Vivo atada, ardida, tamborilante. O medo de atravessar algo que não conheço e que pode ofender alguém me limita. E, para ser sincera, ofender não é um dos meus maiores pecados. Na verdade, a ofensa parece coisa de criança que rouba um doce e tem medo de ser pega. Disso eu não tenho medo e talvez tal fato se dê por eu me calar, quando deveria soltar o verbo.

Perdi o tesão por muita coisa. A previsão anunciou: tempos difíceis estão a caminho, exercitem a paciência. Ando meio cansada do mundo e, para fingir que nada acontece, assumo mais compromissos que o meu corpo pode suportar. Quero olhar o relógio e ver que já são quase dez e que passei por vinte e duas horas sem nenhum rasgo passível de remendo. Quero repetir uma frase como mantra e esquecer que comi uma porção extra de carboidratos. Abortar a missão de aguentar o lixo emocional dos outros só pra fazer a boazinha. Escrever para um homem, com saudade, raiva, tesão, arrepios, melancolia e não ser questionada se ele existe ou se é uma criação, mera produção textual. Ou então, quero falar de amores passados e eles passarem despercebidos, só porque troquei o nome do personagem principal, mas mantive a inicial por uma questão de sentimento não  resolvido.

Estou escrevendo e esquecendo a novela. Chupando seis balas de tamarindo por minuto. Digitando esse texto, a priori, em uma máquina de escrever velha, com medo de quebrar minhas unhas recém-cutiladas. Mandando um monte de recado através dessas linhas. Vai, relógio! Marca logo dez da noite, porque hoje é quarta e meu programa preferido vai passar na tevê. Termine logo esse texto, Ane. Tem um pote de Nutella te esperando na geladeira como sobremesa. Mas, e a dieta? Cadê a academia? E o Estatuto que você precisa estudar para a prova de setembro? Lavou a louça? O cachorro está com fome, não percebeu?

Calma, gente!

Ainda estou decidindo entre o trem sem rumo ou o pulo certo.

Aryane Silva

IMAGEM: Ary4L

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