Diário

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Eu tenho um diário. Ninguém sabia até agora, mas eu tenho. Na verdade, quando você fica mais na sua, introspectivo, acaba procurando uma “rota de fuga” para desabafar. E como sou adepta a poucas palavras ditas, prefiro escrever. Acho que foi assim que me tornei escritora: desabafando no papel.

Obviamente, também não tenho muitos amigos para chorar as pitangas. Tenho três amigas que são sagradas e, com elas, apesar de me sentir bem à vontade, não tenho o costume de reclamar meus tropeços e deslizes. Sempre quando me perguntam como estou, digo que bem, mesmo eu tendo mil motivos para abrir o berreiro. Sei que amizade é compartilhar alegrias e tristezas, mas eu não sou fã de ficar reforçando as derrotas que me acontecem. Prefiro que eles chorem suas dores para mim.

A princípio, minha caderneta vermelha, de capa dura e pautada, não era para ser um diário. Quando ganhei de presente – ela e outra menor, da mesma cor – me deram no intuito que aquele presente me ajudasse a organizar as ideias para o próximo livro, que seria um romance e que, como vocês sabem, leva anos para ficar pronto. Eu a deixei guardada por um tempo, pois ainda estava empolgada com meu primeiro livro publicado. A caderneta pequena eu comecei a usar antes, para anotar meus sonhos. Sim, eu faço isso há anos. Não sei com qual propósito, mas comecei a fazer quando meu terapeuta me recomendou. Virou um vício.

Só que, por ser pequena, ela acabou muito rápido. Talvez eu tenha andado com sorte em lembrar de todos os meus sonhos ou isso foi uma peça que o destino pregou para eu comprar outra. Mas não cedi aos seus caprichos. Ao invés de adquirir uma nova, utilizei a de tamanho maior. Nela, comecei a escrever detalhes do que eu sonhava. Depois, as sensações que tinha com eles. Mais tarde, os sentimentos acerca deles e a recorrência com a qual aconteciam (eu sempre sonho com duas pessoas que me detestam). E foi assim que nasceu o diário, nessa relação macabra dos meus sonhos corriqueiros e as pessoas que causaram a maior mágoa que senti até hoje.

Mas não é dessas pessoas que quero falar e sim de um fato inusitado que me aconteceu essa semana.

No início dessa semana eu fiquei bem chateada com uma pessoa. Como eu não sou de revidar, escutei o que ela disse e fiquei calada, porque é o que me resta. Às vezes a ofensa vem de um “lugar” tão triste, que não vale a pena o esforço; é bem mais fácil tentar esquecer e seguir. Decidi escrever sobre isso no meu diário, mas eu estava com tanto sono, que escrevi muito pouco, metade de uma folha. Três dias depois eu recorri ao diário para escrever sobre a mesma pessoa e a mesma situação, sem perceber. Continuei da folha onde havia parado e, ao terminar, ri da coincidência. Mas meu sorriso se fechou quando me dei conta de uma coisa: não é cômico, e sim trágico.

Eu sempre acreditei na vida e na verdade que o tempo revela. Nunca acreditei que o tempo cura nada, ao contrário, ele coloca o dedo na ferida através da realidade. Mas, com o passar dos anos, algumas coisas PRECISAM perder a força. Uma delas é o peso que uma ofensa, um deboche, um julgamento ou uma alfinetadinha por esporte pode ter sobre nós. Uma hora, todas essas coisas perdem a graça, seja para quem emite, seja para quem recebe.

A gente só recebe quando permite isso. O meu diário deve ter umas vinte páginas símiles, onde relato mais ou menos a mesma coisa. Decidi, depois dessa triste coincidência, não permitir mais. Por mais que eu acredite que cada um oferece o que pode ou tem de melhor, não serei eu a pessoa complacente que carregará a bandeja de prata com lixos emocionais alheios.

Dizer não a isso tudo pode parecer egoísta, mas é absolutamente libertador. Só você tem – e deve  ter – o controle da sua vida. Não podemos sair arranhados porque o outro não sabe lidar com os próprios machucados. É preciso encarar a vida, se pôr em primeiro lugar, sustentar-se no que acredita.

Se você não fizer isso, cometerá o mesmo erro que eu (embora esse erro tenha acendido uma luz dentro de mim): descreverá seus dias com as mesmas palavras.

Aryane Silva

Imagem extraída do Google

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