Carta para um amigo que amo

image

Uma vez você me perguntou por que eu não escrevo sobre amizade, e eu, sempre saindo à francesa, preferi falar sobre a modelo magrela do outdoor que estava à nossa frente, fazendo uma piada que acabou te distraindo. Nesse dia, ou melhor, nessa época, eu não era muito honesta comigo, o que dificultava ser sincera com quem quer que fosse. Mas a vida, essa danada, acabou me mostrando a verdade, deixando que eu passasse pela experiência para aprender. E agora, justo agora, eu posso escrever sobre.

Eu te amo muito. E quando me pego pensando nisso, crio situações imaginárias para justificar esse sentimento. Se você precisasse de um pedaço do meu fígado para sobreviver, eu daria, mesmo morrendo de medo de cirurgias. Se você me pedisse para enfrentar uma fila de mil pessoas só para eu pegar o autógrafo do seu escritor preferido, eu ficaria em pé durante horas, até chegar a minha vez e te entregar o livro no dia seguinte, ansiosa por ver seu sorriso ao recebê-lo. Se alguém te ferisse, seja física ou emocionalmente , eu bateria na porta dessa pessoa e faria o escândalo do século e ela nunca mais abusaria de você. Essas são algumas coisas que penso quando tento justificar esse sentimento.

Mas não é nada disso. Amar um amigo, muitas vezes, é desistir dele para que outro mais cabível invista.

Às vezes, ser amigo é não pedir nada, mesmo que se queira só um abraço. E tantas outras é se por em um lugar menos confortável e mais correto, só para que o outro não acorde para a realidade de manter relações com alguém inapropriado. Às vezes, ser amigo é ver seu amigo ser amigo de todo mundo, menos de você, porque seu tempo é seletivo e você é problemático demais para caber em dois segundos de um “oi” apressado. Ser amigo é fechar os olhos e agradecer a presença que existiu e a saudade que ficou e esmaga de vez em quando. É ter vontade de correr e abraçar. É ficar sozinho e desejar o melhor para o outro. E entender que muitas estradas são bifurcadas no fim. A minha foi projetada dessa forma e, por uma questão de centímetros, cada um foi pro seu lado.

Eu só quero que saiba que te amo e não preciso de hipóteses para entender por que esse amor existe. Amo a criança e o adulto que se formou. Aquele que ninguém dava nada e que virou o jogo, surpreendeu. Amo o lado menino, corrido, brincalhão e aquele que chora quando ninguém vê. Amo o que desacredita que Deus salva, e o que crê na sincronicidade dos acontecimentos. Que fala pouco e nem precisa, porque os olhos já fazem isso.

Amo e sinto saudade.

Sim, uma puta de uma saudade.

Aryane Silva

Anúncios