Sentidos

street_by_mahmoudz

Esta semana eu estava procurando um caminho alternativo no meu bairro para fazer a minha sequência de caminhada/corrida/caminhada acelerada. Como moro quase à beira de uma estrada, fica impossível correr em meio a carros, ônibus e caminhões (embora haja quem se arrisque). Entrei em uma rua aparentemente tranquila, mas era uma ciclovia e, por causa da música estridente do fones de ouvido, eu não conseguia ouvir boa parte das recomendações dos ciclistas que passavam ali. Quem estava errada era eu, sabia bem. Tanto sabia que saí de lá.

Quando voltei para a estrada, senti um desconforto na perna direita. Comecei a mancar. Reduzi a velocidade. Voltei a caminhar, bem lentamente. Prossegui.

Decidi entrar em uma outra rua que margeia um rio. É um lugar de caminhada muito utilizado pelos moradores do meu bairro, mas totalmente evitado por mim. Eu tenho pavor de urubus e ali tem aos montes. Você olha para os postes e só vê vultos pretos, no topo deles. Eles ficam lá, paradinhos. Não fazem nada. Mas a minha mente não processa essa ideia. Para mim, eles são gárgulas, prontos para me arrebatar para o inferno.

Para minha sorte, não tinha um sequer. Deviam estar em outro lugar. Senti um alívio imenso e voltei a caminhar, a correr, quase a dançar. Durante o percurso, encontrei muita gente que conheço de rosto, que eu chamo aqui em casa de “meus amigos de caminhada”. Toda vez que nos encontramos, trocamos um aceno de cabeça como cumprimento e eu fico imaginando qual seria o nome daquelas pessoas. De todos que eu encontro, três são certos: um rapaz que sempre está vestido de preto, com barba por fazer e fones na cor amarela, uma senhora que olha com desprezo para minha calça colorida e depois sorri, e uma menina que usa polainas rosa-choque e passa por mim comendo uma paçoca.

A rua tem aproximadamente quatro quilômetros e quase não passa carros por ela. Nunca entendi por que os motoristas não a usam como atalho para cortar o trânsito da estrada principal.

Mas ao chegar ao final dela, entendi o porquê. E senti um desconforto novamente.

Desta vez, no coração.

Ao final da rua há um prédio abandonado, invadido por moradores de rua. As paredes externas pareciam chamuscadas e havia uma montanha de entulhos ao lado dele. No meio dos objetos descartados, crianças brincavam, atiravam pedras em sei-lá-o-quê, sujas, imundas. Cachorros transitavam na via, revirando o lixo, procurando algo para comer. Um homem gritou Rafaeeeeeeeeela e uma menininha, que parecia ter três anos olhou para o que deveria ser uma janela, mas se tratava de um buraco. Levantou do chão, limpou as mãos no short já sujo, adentrou o prédio e sumiu na escuridão dele.

Eu parei e olhei para aquilo tudo. Olhei, olhei, olhei. Senti o cheiro, que não era nada agradável, enquanto ouvia ao longe as buzinas nervosas dos carros, pedindo passagem. Ali era silêncio. Um silêncio sepulcral. Ou eu estava surda para ouvir os estômagos roncando de fome, o choro das mães arrastando carroças cheias de papelão, para garantir a refeição do dia. O som da tristeza me é familiar, mas, a mim, soa como um arioso de Bach, quase poético. Ali, este sentimento é mudo, mas espoca em tudo que é visto, sentido.

Corri, corri muito. Pra caramba. Queria sumir dali. Meu peito ardia, meu coração palpitava, vinha à boca e eu o engolia por teimosia, quase dizendo-lhe “não, por favor, aqui não”.

Cheguei em casa, quase sem perna. Quase sem alma.

Sentei no sofá e chorei, chorei, chorei e não conseguia parar de chorar. Chorei como se aquelas pessoas com vida tão difícil tivessem me dado um tapão na cara bem estalado. Chorei como muitas delas que não são vistas, não são amadas, não são valorizadas e são pessoas como eu. Chorei a dor delas. Ou uma pequena parte. Um átomo dolorido de mim se transformou em agradecimento por tudo que eu tenho, o que sou e o que ainda poderei ser.

Hoje, uma semana depois, estou com um ligamento ferrado. Mas isso não é o que me dói mais.

Não é mesmo.

Aryane Silva

IMAGEM: Mahmoudz (Deviantart)

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