Eterno

 

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Quer me deixar feliz? Me dê dez metros de plástico-bolha de presente. Chocolate e flores, já saíram da moda. Se quiser, venha aqui e me conte seus projetos, a graduação que quer fazer, mesmo que seja algo meio doido e que tenha a relação candidato/vaga mais atraente que Letras Português e Latim, como eu quero. Me dê um filhote de cachorro para eu chorar feito criança que recebeu um brinquedo novo. Poste uma carta em um envelope azul, escrita com caneta dourada. Lembre-se que eu amo narcisos e tire a foto de algum para me mostrar. Me ligue para falar a última merda que fez, sabendo que eu não posso te ajudar, a não ser fazer você rir com meu humor negro. Traga uma pulseira de feirinha hippie ou aquele pão doce com goiabada que eu sou apaixonada, mas que não vende mais na padaria da esquina. Deixa eu te abraçar e sentir você gelado e quente, trêmulo e com o coração ganhando nota dez no quesito bateria, ao me reencontrar depois de anos. Pegue em minhas mãos e me olhe, me olhe, e olhe, e olhe, e olhe, tanto e demorado, que me dê vontade de rir, encabulada. Compre para mim um anel de coco de um real naquela loja do China que só vende quinquilharias de baixa qualidade. Faça uma tatuagem que me emocione. Coloque aquela música do Roberto às quatro da manhã para eu ouvir pelo telefone e que me faz lembrar mamãe Jane. Diga que viu um poste colonial e lembrou de mim e do meu livro. Me ensine a falar “regue, não negue” em Francês.

Me abrace. Me beije (como amor, como amiga, como sobrinho e seus beijos babados, como irmão que não é dado a nhenhenhéns), diga que sou importante. Faça carinho no meu pé até eu adormecer. E me cubra. Não esqueça; o anjinho foge.

Hoje estou disponível a receber pequenas felicidades. Com uso ou sem uso. Na caixa ou em papel de presente usado.

Mas que nela, você exista.

Porque, quem existe para mim, é eterno.

Aryane Silva

IMAGEM: MultiCurious

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