Dorme, que passa

such_a_lonely_day_by_arya_dwipangga

Hoje eu acordei triste. Uma tristeza sem explicação.

Fui comentar com uma pessoa, que disse “ai, quanta besteira! você tem tudo para ser feliz!”.

E nessa hora, realmente fiquei feliz, não por ter tudo, mas por não ser como aquela pessoa que não sabe se colocar no lugar do outro.

Hoje eu acordei triste e não queria nada que me alegrasse.

Queria deitar e chorar as pitangas.

Então ouvi meu vizinho brigar com a esposa, ao berros.

E nessa hora, fiquei feliz, não por não brigar, mas por saber calar quando necessário.

Hoje eu acordei triste e disse que não pentearia os cabelos.

Queria ficar de pijama o dia inteiro.

Então vi uma senhora na Globo News dizendo que venceu o câncer, ostentando seu cabelo curtinho.

E, nessa hora, fiquei feliz, não por por ter cabelo para pentear, mas por não ter uma doença grave.

Hoje eu acordei triste e pensei em deletar todas as redes sociais.

Não queria contato superficial com ninguém.

Então eu li um texto do Edson Marques na minha linha do tempo, quando eu estava prestes a deletar o perfil.

E, nessa hora, fiquei feliz, não por ter tomado a decisão de não ter excluído o Facebook, mas por saber que, segundo o autor, “a direção é mais importante que a velocidade”.

Hoje eu acordei triste porque minha vida não está como eu quero.

E, quando penso nisso, me culpo por não fazer nada a respeito.

Então me lembrei de tanta gente que cruza os braços e fecha os olhos para as dores do mundo.

E, nessa hora, eu fiquei feliz, não porque eu sou militante de causas, mas sei abraçar quase todas que me apertam o coração.

Hoje eu acordei triste, com uma saudade absurda.

Uma vontade de ligar para uma pessoa que eu amei muito, mas que me odeia.

Então lembrei que essa pessoa, para me odiar, não me conhece o suficiente.

E, nessa hora, fiquei feliz, não porque o ódio é contrário do amor na filosofia de bar, mas porque essa pessoa jamais me conhecerá por inteiro, enquanto o mundo prepara alguém disposto a isso por mim.

Hoje eu acordei triste, mas tomei café da manhã.

Li três capítulos de um livro maravilhoso.

Escrevi vinte páginas do meu romance.

Conversei com três amigas queridas.

Comi Nutella.

Cantei Vercilo.

Acendi incenso de rosas vermelhas.

Ri com vídeos engraçados.

E então, lembrei que algumas coisas não mais me afetam.

E fiquei feliz, não por elas não me afetarem, e sim por elas me afetarem.

Porque, graças às pancadas que a vida me dá, eu fico mais forte.

E pronta para outra.

 

Aryane Silva

 

IMAGEM: arya – dwipangga

 

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