Prato principal: borboletas

butterflies_by_breathless_ritsuka

Ela amou uma primeira vez, achando que seria a única. Foi obrigada, pelo tempo e ingenuidade, a desamar.

Abriu as cortinas sempre fechadas do apê e o segundo amor passeava com o cachorro, em frente à sua janela, às cinco da tarde. Mas ele, menino no jeito e homem na aparência, tinha alguns sonhos que iam contra os ideais pacifistas dela. Acabou quando ela percebeu que suas crenças eram maiores.

O terceiro, metido à besta, cheio de trezentas intenções, era abastecido de uma comunicação de duplo sentido. Mas ela não estava com vontade de decifrar charadas sexuais. Terminou antes de começar. Amor de terceiro andar.

Depois desse breve tempo, ela conheceu um outro alguém que tinha apelido curto demais e que rimava com o seu. Esse ela amou. Doeu, sangrou, fez chorar, matando de saudade e de fome, a fez querer se teletransportar para outra cidade. Mas o “não” dito por ele, depois de oito meses, foi a força que faltava na ponta do laço para ser desfeito. E foi.

De raiva e mágoa, amou um quinto. Amigo, do amigo, do amigo, do amigo. Conheceu na praia e, dois meses depois, tirava a mesa, em meio a protestos de torradas queimadas e café fraco. Esse, ela amou miúda, quieta, quase murmurando declarações, para não acordá-lo. Desse, ela tinha uma espécie de medo. E quando o medo colocou o amor no bolso, ela fez igual, colocando algumas roupas na mala e foi embora, quatro anos depois.

E quando ela pensou que não tinha mais estômago para abrigar borboletas novas, conheceu mais um. Com esse, o sexo era excelente, apesar do nome estranho. Ela atravessava a cidade nos finais de semana  para vê-lo e andar de mãos dadas. Com ele, ela aprendeu a ser simples e acreditar na vida. Mas ele, apaixonado de corpo e alma, queria aquela mulher só para si. Ela não estava pronta para amores arrebatadores. Saiu de cena, largando o amor feito várias vezes na cama e pediu um tempo.

O tempo passou: o que foi dado para o outro e lhe trouxe um amor novo em folha. Esse foi mais resiliente. Eles eram uma ilha, cercada de problemas por todos os lados. Ela foi forte, suportou coisas que estavam além do seu entendimento, apesar de saber que sua felicidade era um todo, e não migalhas. O adeus foi amigável.

E agora, depois de tantas portas, camas e bocas diferentes, ela se vê paralisada com um possível amor, totalmente diferente dos outros. Um que tem bagagem, mas leva o que precisa. Um que tem todas as palavras, mas as economiza. Um que usa a fita vermelha da cabala no pulso errado e a faz sorrir. Que levanta a sobrancelha ao saber que o gosto musical é o mesmo. Um que a vê como uma folha em branco, pois nada conhece, e por não conhecer, não pode julgar. Um que é mais frágil, mais prudente e que precisa de alguém lhe dê um novo sentido, um novo trajeto. Alguém que lhe ensine a linguagem do amor, que fala sem dialeto e toca com a íris.

Ela percebeu isso.

E repete mentalmente, como mantra: por favor, garota, não estrague tudo desta vez.

Aryane Silva

IMAGEM: Ritsuka (Deviantart)

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