Diálogos (quase) possíveis – história 3

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Ela havia esperado a ligação dele por quase um mês. Via que ele estava online nas redes sociais a maior parte do tempo, mas não falava. Não puxava assunto. Por serem muito parecidos, agiam igual. “Só falo quando falam comigo”, era o que os dois bradavam, em conversas aleatórias. Cansada de saber que dois bicudos não se beijam, ela deixou que a vida acontecesse.

E aconteceu, bem no dia 24 de dezembro, enquanto ela lavava a louça. Ouviu seu celular emitir um sinal sonoro de mensagem recebida. Era do aplicativo que ela olhava mil vezes por dia. Era ele, que ela esperava por uma vida.

“Oi. Você vem hoje aqui?” 13:58

“Boa tarde. Talvez. Por quê?” 13:59

Ela sempre era formal com ele, mesmo quando ele surgia do nada, fazendo seu coração acelerar, junto com um sorriso escancarado.

“Por nada. Eu só queria saber se você viria, para eu não sair de casa.” 13:59

Ela sorriu mais uma vez. Digitou a resposta, depois de alguns minutos, só para não comprovar seu desespero.

“Por que você não sairia de casa?” 14:08

“Porque eu quero te ver.” 14:08

Ela não acreditava que aquilo estava realmente acontecendo. Tentou soar o mais fria possível, mas a sua resposta desembuchou muitas palavras guardadas até então.

“Ok.” 14:09

“Você está ocupada?” 14:10

“Não, pode falar. Ou melhor, digitar. Rs” 14:12

“Eu digo que quero te ver e você só me diz ok?” 14:14

“E o que você gostaria que eu te respondesse?” 14:16

“Que está com saudades e feliz por isso.” 14:17

“Ok, estou feliz com isso. Melhorou? Rs” 14:20

“Só isso? E a saudade?” 14:20

“Vai acabar quando a gente se encontrar.” 14:21

“Então você vem passar o Natal com a gente?” 14:21

“Passar o Natal não, porque é uma comemoração familiar. Mas garanto visitar vocês.” 14:23

“Você já faz parte da nossa família, sabe disso.” 14:24

Mais um sorriso dela. Ele era especialista em causar isso.

“Faço?” 14:25

“Sim. E de mim também.” 14:26

“Não entendi.” 14:27

“Entendeu sim. Você que finge não saber. Deve achar que eu não penso em você, que não troco seu nome aqui em casa, que não escuto teu cantor preferido e não lembro de você.” 14:28

“Não, eu não sabia disso. Muita coisa para processar.” 14:30

“Então estou te esperando para te ajudar a entender. Rs” 14:32

Ela leu a última mensagem, sorriu mais uma vez, largou o celular na bancada da cozinha e terminou de lavar a louça.

E, como sempre, não apareceu. Passou o Natal pensando no “se” que ganhou de presente. Mas não desembrulhou. Guardou na gaveta para “quem sabe um dia”, como sempre fazia.

 

Aryane Silva

IMAGEM: Verada (by Deviantart)

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