A passos lentos

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Não é a topada do dedo mindinho do pé, na perna da mesa, que dói.

Nem o corte superficial na mão, quando descascamos os legumes da sopa.

Muito menos as bolhas causadas pelos sapatos novos.

Não são os pêlos arrancados à pinça, nem o torcicolo por dormir de mau jeito, nem o bife arrancado da unha pela manicure aos sábados.

Não, isso não dói.

Nem o tiro, nem o tapa, nem o tropeço de cara no chão.

O que machuca é ser esquecido por alguém que tem olhos inesquecíveis.

Difícil (e dolorido) é amar, ser amado e, depois de um tempo ser forçado em desaprender a amar.

Olhar as fotos e não caber em um porta-retratos.

Não ter mais palavras secretas compartilhadas e abraços nunca dados.

O que dói é olhar para o outro e vê-lo como um outro qualquer, sem reconhecer que um dia ele foi um pedaço seu.

É dialogar com o espelho para matar a saudade.

E escrever cartas que nunca serão enviadas por falta de coragem.

Isso que dói.

O resto, todo o resto, é superficial.

Aryane Silva

IMAGEM: JonjaCobsen (retirada do site Deviantart)

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