Tantos, todos feitos de quases

please_stop_by_atsibusk-d3hoeom

Ana não cumprimentou o porteiro do seu prédio, porque há cinco semanas ele não respondeu seu bom-dia.

Suzana viu uma menina no metrô, lendo seu livro preferido. Sentiu vontade de perguntar se ela estava gostando da leitura, mas não quis interrompê-la.

Sérgio lembrou que a filha de oito anos gosta de macarrons, ao passar em frente a uma confeitaria francesa, mas não comprou, porque chegaria tarde em casa e ela já estaria dormindo.

Mirna brigou com Pedro, seu namorado, no domingo passado. Por isso, rasgou o cartão que escreveu para ele e tirou a foto do porta-retratos que daria a ele para comemorar cinco anos de namoro.

Fabrício leu o post triste de uma colega da época do ensino fundamental e quis comentar, com palavras de apoio. Mas apagou, para não parecer ridículo para os outros seguidores.

Marcos está de férias e prefere procurar outros destinos de viagem, ao invés de visitar os pais, que não vê há mais de uma década, considerando que eles não dariam importância à sua visita, já que são idosos e vivem em um mundo muito particular.

Andreia viu a chefe Luciana atolada de trabalho, com a mesa cheia de papéis. Aquilo lhe causou aflição e ela pensou em ajudá-la a se organizar. Mas, com medo de ser motivo de piada dos colegas, que sempre a chamam de “puxa-saco”, apenas desligou o computador e se despediu.

Wellington está apaixonado por uma mulher com cara de menina. Sabe que ela gosta de Shakespeare e peças vintage. Chega a pegar Hamlet, mas, a caminho do caixa da livraria, desiste da compra. A seu ver, ela jamais se interessaria por um cara dez anos mais velho, divorciado, sem carro e fã de Nina Simone.

Esses são apenas alguns casos dos “quases” que vivemos diariamente.

Talvez, o porteiro espere o bom-dia de Ana todos os dias e esteja triste em não recebe-lo. A menina do metrô nunca vai saber que tem o mesmo nome daquela moça elegante que a olhava, sem parar. A filha de Sérgio, naquele dia, deve ter sonhado com os macarrons de brigadeiro. Quem sabe Pedro, namorado de Mirna, esteja cheio de saudades e disposto a pedir desculpas por um erro que não cometeu, só para não passar o aniversário de namoro sem a mulher que ama ao lado? E Fabrício? Será que ele não imagina que seu comentário, lá na rede social, pode mudar o dia de sua colega, para melhor? Marcos, tão teimoso! Se soubesse que seus pais esperam por ele todos os dias e sua mãe ainda coloca mais um prato na mesa na hora das refeições… Andreia, que se importa tanto com o que os outros vão falar, não imagina que Luciana, sua chefe, sabe do potencial que ela tem e que ela seria a única que saberia organizar sua mesa de maneira funcional. E o Wellington, que economizou no livro, vai se arrepender todos os dias quando souber que a música preferida de Alicia é Feeling Good.

A gente se poda o tempo inteiro. Acreditamos que o outro não dará importância ao nosso afeto e que faremos papel de trouxa. Aliás, acho tão feio quando vejo uma pessoa se intitular assim e ainda achar graça. São essas que economizam alma, abraços, palavras, atenção.

O importante não é o que reverbera e sim o que é transmitido. Não perder a oportunidade de colecionar bons momentos e lembranças.

Aryane tem vinte cartas escritas e não enviadas, guardadas na gaveta do criado-mudo. Acha isso clichê, mas prefere ser previsível a ter seu coração ferido. Se importa com os outros, pensa em ligar para perguntar como eles estão, mas acredita que será incômodo para eles. Sempre há uma panela no fogo ou alguém chama no portão. Ela elegeu uma música para cada pessoa que amou, mas nunca disse. Sempre teve vontade de provar ceviche e sabe como preparar, mas acha que seu paladar não precisa de mimos.

Aryane precisa ler o texto que acabou de escrever, para aprender um pouco mais sobre a vida.

Aryane Silva

IMAGEM: Atsibusk

 

Anúncios