Contando estrelas

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Eu queria dizer para ela que aquele cara não queria nada sério, mas o meu jeito de falar é meio grosseiro e nunca achei a medida exata para não magoar. Todas as vezes que conversávamos, ela me contava algo que ele tinha dito e eu sabia se tratar de mais uma faixa no disco arranhado de sua vida sentimental. O mesmo roteiro, mesmas atitudes, mesmo derretimento vazio, mesmas promessas. Mesmo fim. Ela me contava com a boca cheia de esperança e eu ouvia, com o coração cheio de tristeza em ver uma amiga tão querida passar noites em claro por alguém que não merecia sua insônia.

A cada conversa, eu avançava um passinho no terreno desconhecido do coração alheio. Dizia, cheia de dedos, o que ela não queria ouvir. Na tentativa de não perder uma amizade, ela mudava de assunto. Falava de autores, livros, filmes, tudo o que eu gosto, só para me distrair e não escutar a verdade que ela conhecia, mas se negava a aceitar.

Ele a conquistou da forma mais estúpida que já vi: com distância e expectativa. A cada trilha sonora enviada por ele, como pano de fundo de um romance que não existia, ela chorava e morria de saudades. Por ser sua amiga mais cúmplice, ela vinha me contar. E eu, desconfiada que só, não acreditava que aquele homem faria alguma diferença em sua vida. Um alerta vermelho piscava no meu cérebro a cada vez que ela citava seu nome. Eu sabia o que precisava ser feito, só não sabia como.

Até um dia o sincericídio me acometeu, logo pela manhã, depois de uns goles de mau humor matinal. Ela me ligou para dizer que iria vê-lo. Algumas verdades saíram de mim, regurgitadas pela minha impaciência de ver a mesma história mal contada se repetir. Ela estava cega, de todas as formas. Faltava-lhe uma boa sova de palavras diretas. E eu lhe dei isso.

Ela se afastou de mim. Mas isso, de fato, não me surpreendeu, porque era apenas mais uma página virada, a mesma, pela terceira vez. Sabia que aconteceria o óbvio, como acontece com leitores  distraídos: sempre voltam de onde pararam. E eu estava ali, à espera, de prontidão. E não precisei esperar muito. Ela caiu em si e voltou.

Dessa vez, minha voz saiu em tom conciliatório, como uma mãe que sai de uma reunião escolar do filho e o aconselha, a caminho de casa. Ela chorou e lamentou o tempo perdido. Preferi encarar isso como um aprendizado que a vida estava lhe obrigando a absorver. Ela sonhou mil vezes com ele, chorou mais duas mil comigo: as fases de praxe do esquecimento.

Hoje ela está com um punhado de lembranças, alguns prints de conversas (que ela relê à exaustão) e fotos surrupiadas da rede social. Me disse que não quer amar de novo. Me disse que não sabe mais contar estrelas.

“E quem sabe, minha amiga?”, eu disse.

Quem sabe contar estrelas, quando o que mais se quer é voltar para casa?

Aryane Silva

IMAGEM: DaphneNg

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