No passado

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Eram quatro da manhã quando perdi o sono. Olhei para o lado da cama e ele dormia, profundamente. Pensei: “como alguém pode dormir tão bem, sabendo que magoou quem sempre jurou amar?”. Suspirei, cansada daquilo tudo.

O relógio marcou seis horas e eu ainda estava procurando a resposta para essa pergunta. Refiz mentalmente os seis anos de relacionamento, de cama compartilhada e mesa dividida. Meu sentimento mudou acerca de todos aqueles dias. Me perguntei se em algum momento tivemos uma alegria genuína, daquelas que não são engolidas pela rotina e contas em atraso. Não sabia mais. A mágoa era a neblina que turvava os meus reais motivos para estar ali.

Quando deu seis e quinze, eu me levantei. Arrastei a cortina devagar e vi dois passarinhos pousados no parapeito da janela. O dia estava começando e eu, só querendo dormir. Ele se remexeu quando levantei, mas continuou de olhos fechados. Fui para a cozinha preparar um café, que é meu companheiro desde as provas da faculdade. Não tive forças, nem vontade. Olhei para as duas canecas em cima da pia, personalizadas com nossos nomes e achei graça na ironia. Enchi a minha com o café do dia anterior, já frio, queimado, sem vida, que desceu pela minha garganta à força, enquanto eu recordava cada palavra dita.

Ontem ele chegou calado. Sentou no sofá e apoiou a cabeça nas mãos. Já imaginei que fosse algum problema no trabalho. Mas, diferente das vezes que ele chegava e começava a xingar o chefe, desta vez ele chorou. Nunca vi nenhum homem chorar por perder o emprego, se fosse este o caso. Esperei que ele falasse, girando a aliança no dedo anular, como uma mania recém-adquirida diante do medo em ouvir algo que não queria.

E ouvi. Ele, sem me olhar, disse que não me amava mais. Eu ri. Ele não. Argumentei que aquilo soava ridículo, depois da surpresa que me fez na semana anterior, quando comemoramos seis anos de casamento. Eu ri de novo, pedindo para ele parar com a brincadeira. Ele me olhou tão sério, que eu entendi o recado. Não era brincadeira. A coisa era séria. Comecei a me sentir enjoada. Perguntei se ele estava apaixonado por outra pessoa, torcendo para que fosse isso. Também não era. Ele simplesmente deixou de me amar. Falou do carinho e da gratidão que sente por mim. Eu rebati, explicando que carinho eu sinto pela minha amiga de infância e gratidão, pelo seu Antenor, o porteiro do nosso prédio, sempre que ele me ajuda a subir com as sacolas do mercado. Que amor é muito mais que isso. Desatei em um discurso homérico, que ele detestava. E foi tudo em vão. Ali, não falávamos de amor. Falávamos de qualquer outra coisa, menos de amor. Ele me ouviu, respirou fundo e disse que precisava dormir.

Quando ele acordou, eu já não estava mais ali. Estava caminhando. Estava comendo donuts, cheios de açúcares e gordura trans. Estava esperando o shopping abrir para experimentar sapatos novos. Estava dentro do cinema, vendo filme de um super herói da Marvel. Estava decidindo entre um corte de cabelo novo ou um livro de poesias. Estava passando no caixa, com a cestinha cheia de chocolates. Estava na França, dois meses depois, andando de avião pela primeira vez, a convite de uma prima que visitaria o namorado. Estava em um restaurante com ela, quando Pierre chegou com um amigo, Valentin. Estava olhando para ele, sem disfarçar. Estava me apaixonando pela segunda vez na vida. Estava ansiosa, esperando Valentin chegar ao aeroporto, trazendo mala e cuia para viver comigo de vez. Estava seguindo em frente, anos depois.

E ele? Não sei. A última lembrança que tenho é de vê-lo dormindo.

Tenho certeza que ele está onde precisa estar: no passado.

Aryane Silva

IMAGEM: Allterlleringet (Site Deviantart)

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