Diálogos (quase) possíveis – história 10

hold_your_hands_in_mine_by_fayde2memory

Ela estava terminando um trabalho da faculdade no laptop, quando um ícone de novo e-mail piscou na tela. Às pressas, clicou no ícone, porque já estava atrasada para a aula. Mas tudo à sua volta parou quando ela leu a mensagem:

Por favor, venha me ver. Preciso da sua ajuda. Estou em casa. Pegue a chave com a Lia.

Ela jogou o computador no sofá, ligou para a professora e deu uma desculpa para faltar à aula daquele dia, pegou a bolsa e chamou um táxi. Passou na casa de Lia, que era quase do outro lado da cidade, pegou a chave. Atravessou a cidade de volta, com o mesmo motorista e, duas horas e meia depois, estava tentando enfiar a chave na porta do apartamento dele, coisa difícil para quem estava trêmula e nervosa.

Escancarando a porta, ela entrou e foi direto ao quarto. No curto caminho, lembrou que não poderia deixar transparecer sua preocupação. Forçou estar descontraída, antes de vê-lo.

– Oi! A que devo a honra do convite? – ela sorriu, com os lábios tremendo.

– Minha amiga é a pior atriz que eu conheço. Não nos vemos há anos, eu te mando um e-mail pedindo ajuda e você acha que me convence com esse sorriso falso? Se você quer chorar, pode fazer, mas não tem necessidade. Eu ainda não morri. – ele ria dela.

– Tá bem. Ok, você está certo. Eu quase tive um infarto quando recebi seu e-mail. Larguei tudo e vim. Aliás, por que a Lia não está aqui com você?

– Brigamos. E isso é tudo que precisa saber.

– Ok, desculpe. Poxa, você quase me matou do coração!

– Você me faria um favor se não usasse esse verbo perto de mim, pelo menos por enquanto.

Ela se calou. Engoliu o choro, as saudades e a vontade que tinha de dar um abraço nele e pedir desculpas pela ausência. Mas ele estava debilitado, magro demais para isso.

– Calma, que é só uma pneumonia. Daqui a pouco estarei novo em folha!

– Se você está tão calmo, por que me chamou?

– Porque eu te amo. E se tem uma pessoa que eu gostaria que estivesse ao meu lado nesse momento, esse alguém é você. Pode passar a noite comigo?

Ela queria gargalhar, tamanho era seu nervosismo. Mas a possível seriedade daquilo tudo lhe causava um pânico silencioso.

– Posso, claro.

– Tem um pijama seu dentro do armário, na segunda gaveta. E acho que um par de chinelos lá na lavanderia.

– Os chinelos ainda cabem.  O pijama, não tenho tanta certeza.

– Cabem sim, você continua linda.

Ela sorriu e foi ao banheiro se trocar. Apoiou as duas mãos na borda do lavabo e chorou. Sabia que ele não estava bem. Pior do que vê-lo naquele estado, era saber que ficou seis anos sem ver o amigo de infância por uma interpretação errada dos fatos.

Quando voltou ao quarto, ele havia deixado um espaço na cama para ela deitar.  Ela se sentou.

– Me perdoa. Por favor, me perdoa. Eu estraguei tudo. Não sou a melhor amiga que você tem, nem a mais divertida. Sou imatura, caprichosa e…

– Para, para agora. – ele a interrompeu – Não é para isso que te chamei aqui. Você não precisa se desculpar por nada. Nem eu preciso. A vida nos separou mais uma vez. Talvez eu estivesse eufórico por um amor novo e trabalhando muito, e você lidando com seus problemas. O importante é que estamos juntos de novo, embora eu não quisesse que fosse nessas condições. Nem vou poder te levar para tomar um café, como fiz da última vez.

Ela sorriu e olhou para o carpete. Percebeu que ele havia trocado o antigo.

– Olha, você sabe que eu não acredito nessas baboseiras cósmicas que você crê. Mas, de uma coisa eu tenho certeza: a vida nos quer juntos.

– Você acha?

– Achar não, eu tenho certeza. Nós damos voltas e voltas, mas paramos no mesmo ponto. Eu não sei qual é essa coisa que me une a você, mas sou grato. – ele abriu um dos braços – Vem cá.

Ela deitou em seu peito e chorou. Desta vez, não quis guardar nem fingir nada. Com ele, ela podia ser ela mesma. O único no mundo inteiro que a aceitava como ela realmente era.

– Eu não te chamei porque estou doente. Eu te chamei porque cheguei ao limite da minha saudade. Você é a pessoa que mais amo nessa vida, mais que meus pais, mais que meus irmãos. E eu queria ter alguns momentos com você, antes de…

– De quê? – ela perguntou, quase gritando.

– Antes de voltar ao trabalho, ora, do que mais seria? Eu não vou morrer, pelo menos não agora. – ele beijou a testa dela.

Os dois dormiram, abraçados. Os dois choraram, juntos.

Os dois acordaram e fizeram novos planos.

E prometeram que, dali em diante, nada os separaria de novo.

(mal eles sabiam que isso jamais aconteceria, porque estava escrito na linha da Vida)

Aryane Silva

IMAGEM: Fade2Memory

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