Na janela da Rua Ismênia

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Na janela da casa onde nasci, pude ver muitas primaveras chegarem. Via a chuva bater e escorrer pela vidraça, me fazendo suspirar, mesmo quando eu não sabia o que aquilo significava. Esperei o Papai Noel tantas vezes no Natal, mas ele escolhia sempre o quintal para deixar meu presente.

Nessa janela, eu olhava a vida. Aquela que eu sentia por dentro e a que passava lá fora. As crianças brincavam sem medo e tempo. Só me restava olhar. Trepar na mureta e sorrir com o sorriso delas.

Naquela janela, tão popular, sem grades e de trancas com as pinturas gastas pelo tempo (um tempo antes de mim), eu era feliz de um jeito muito peculiar. Não tinha nada e tinha tudo. Não desejava grandes coisas. Minha maior ambição era perder o olhar.

Hoje eu sei que não faz o mínimo sentido escrever sobre ela. São duas da manhã e eu estou insone. Ansiosa demais para dormir. Preocupada até os ossos. E sempre que me sinto assim, volto à lembrança daquela janela. Nela, as horas paravam para cuidar de mim. Para me mostrar os mistérios e a realidade. Os meus sonhos vinham parar na minha mão, como uma folha caída das plantas do jardim.

Hoje, não há mais janela naquela casa, eu bem sei.

Não tem mais o amor de vó e os silêncios que habitavam a minha seriedade precoce (ou seria uma espécie de premonição?).

Talvez, agora, eu não saiba mais como voltar lá. Não sou mais aquela menina pálida e magricela, que andava soprando a franja que caía nos olhos. Tenho uma alma expandida e uma cabeça que sabe onde precisa estar.

Mas hoje, confesso, eu queria estar lá. Só um pouquinho.

Aryane Silva

 

IMAGEM: PrincessIn (Deviantart)

 

 

 

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