Deixa eu te conhecer de novo?

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Era 2007, quando terminamos por telefone. Ele, grudento demais. Eu, buscando um amor tranquilo, como Cazuza cantou. Encerramos um telefonema que não demorou dois minutos. Tudo muito breve, direto. Desliguei, peguei as chaves de casa, a bolsa e fui para a faculdade, como se nada tivesse acontecido. Era só um relacionamento que não deu certo, por ene fatores: distância, bagagens, horizontes e gostos (musicais, literários, gastronômicos). Ele comia feijão gelado. Parece desejo de grávida, eu dizia. E ríamos, até a barriga doer.

Ele tinha ciúme de um colega meu. Eu não gostava da sua amiga de infância, que ele chamava de “gênio”. Perguntava, em pensamento, o que aquela menina tinha de tão genial para ser chamada daquela forma. Talvez gostasse de Radiohead como ele, ou, quem sabe, era boa em cálculos. Não sei até hoje.

Eu me achava linda. Superficialmente linda. Futilmente linda. Ele nada dizia a respeito, mas não cansava de repetir que tinha orgulho dos livros que li. Para mim, naquela época, soava como ofensa. Ele me apresentou Renoir e sua paixão por artes. Isso, na época, era entediante. Cansativo. Ele falava, falava e eu sabia que, dali a cinco minutos, eu não lembraria de mais nada. Eu não estava nem aí para suas preferências recém adquiridas de algum site descolado. E, na verdade, não me prendia a nada que não fosse raso. Estávamos em frequências diferentes, só ele não via isso.

Nove anos depois e um encontro casual. A cidade encurtou e eu não percebi. A possibilidade de nos encontrarmos, depois de tanto tempo, no mesmo ponto, era de uma em um milhão. Mas quem disse que o destino liga para estatísticas?

Ele, noivo de uma menina, doze anos mais nova. Casa comprada em financiamento recente. Eu, casada pela segunda vez, cheia de tatuagens e com um olhar cansado. Ele notou que eu estava diferente, mais calada. Não notei muita coisa nele, porque olhei mais para o chão. Eu não queria meu passado de volta, nenhuma amostra. O que estava acontecendo comigo? Que gargalhada é essa que a vida dava na minha cara?

Contra fatos não há argumentos. Ele cansou de falar sozinho e não prolongou a conversa. Não trocamos número de telefone, nem prometemos um segundo esbarrão. Eu queria fugir e ele, ficar. Acho que ele queria ficar. Porque até agora eu estou pensando no quanto seria bom conhecê-lo novamente. No quanto seria legal ele conhecer a minha versão bonita, que ele ajudou a construir.

[sou um punhado de todos os amores que vivi]

 

Aryane Silva

 

Imagem: Pink Paris (Deviantart)

 

 

 

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