Metáfora da goiabeira

f5a3a096db777f74e71b353ab351947b

Quando eu era pequena, estudava em uma “explicadora” que tinha uma goiabeira no quintal. Eu não sabia quando comecei o reforço escolar, mas depois descobri. Nunca fiquei tão feliz. Para driblar minha timidez, a explicadora me deixava pegar uma goiaba do pé, caso eu terminasse os trabalhos de casa. Eu não pensava duas vezes: colocava a preguiça de lado e fazia tudo certinho. Antes de sair pelo portão, eu subia em um banquinho de cimento e puxava uma goiaba branca. Fazia isso todo dia. Até que um dia me desequilibrei e caí. Ralei um pouco os dois cotovelos, mas não fiz estardalhaço, nem chorei. Só fui para a casa triste, sem minha fruta preferida na mochila.

No dia seguinte, quando voltei, vi duas goiabas no chão. Avisei à explicadora que as frutas dela haviam caído. Ela riu e disse que aquilo acontecia muito, por causa da estação do ano. Pensei no quanto eu fui enganada durante todo aquele tempo, quase subindo no muro para pegar uma goiaba, quando elas, mais cedo ou mais tarde, cairiam. Naquele dia, quando fui embora, peguei as duas goiabas caídas e, antes de colocá-las na mochila, a explicadora disse para jogá-las fora, porque aquelas estavam podres e não podiam ser comidas. Esticou o braço, arrancou uma do pé e me deu. Nunca me esqueci disso.

Bem, na verdade, eu tinha me esquecido sim, só me lembrei agora porque isso me trouxe à mente a metáfora das maçãs podres. E isso me fez lembrar também do quanto a gente se perde dos outros, seja por preguiça, por desleixo, ou bobagens. Às vezes, por mero capricho, a gente solta a mão de alguém e se contenta com as amizades mais acessíveis e menos profundas. Amar dá trabalho. A gente se fere e se fode para aprender. E, pior que isso, muitas vezes ferimos os outros, colocando-lhe uma responsabilidade que não é dele: a do nosso bem estar.

Agora eu também lembrei da metáfora da peneira, mas essa fica para outro dia.

Boa noite.

Aryane Silva

Imagem: Burcumbaygut (Deviantart)

Anúncios